Menu Suspenso

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Afro-argentinos existem?


Eu já ouvi falar que os argentinos são um povo racista, mas, o brasileiro também é, não sejamos hipócritas; em todo caso, a situação dos hermanos, isto é, dos negros argentinos, pelo que vejo, é muito mais crítica, que a situação do negro brasileiro, já que, o racismo no país vizinho é muito mais forte e bastante evidente.Vejamos:

Poucas pessoas param para pensar nos negros argentinos, como se estes não existissem. Mas, sabemos que há negros na Argentina, e sabemos que a escravidão também ocorreu por lá.

Segundo relatos históricos, os primeiros africanos chegaram à Argentina no final do século XVI, na condição de escravos, desembarcando na região da bacia do Rio da Prata, onde está localizada a capital, Buenos Aires.

O país foi colônia de exploração espanhola até o final da década de 1810, e contava com uma população negra de escravos bastante densa, chegando a 54 %, entretanto, hoje o número de sua população negra é muito pequeno. Somente 4% da população, atualmente, se considera afrodescendente; em alguns estados o número chega a 7%, ou no máximo 20 %, então, perguntamos: o que aconteceu com os escravos e seus descendentes na Argentina?

Pesquisando sobre o tema, na internet, encontrei títulos curiosos, como: 1) Estrangeiros no próprio país: a história dos afro-argentinos; 2) Onde foram parar os negros da Argentina? e, 3) A história dos negros argentinos: por que eles quase “sumiram” do mapa por lá?

Note que há um mistério aqui, ou no mínimo, uma falta de conhecimento nosso, a respeito da história afro, de nossos vizinhos. Vamos tentar descobrir mais?


Segundo o blog Hebreu Suburbano, de autoria de Anderson Hebreu, “há negros na Argentina sim, e  óbvio que houve escravidão por lá, assim como em todos os países da America, mas, o que acontece é que os afro-argentinos são oprimidos nas periferias da Argentina, e são tão descriminados que, o Censo - ‘IBGE Argentino’ - não contabiliza os negros, nem o os povos Indígenas, como se eles não existissem”. Será exagero do Anderson, ou nossos vizinhos chegaram a este extremo?

No censo argentino, de 1778, encontra-se que, 30% da população argentina tinha origem africana, em algumas regiões esse número chegava a 54%. A proporção se mantém no censo de 1810, mas, cai para 25%, em 1838. E em 1887, repentinamente, algo extremo ocorre, levando os negros a compor menos de 2% da população argentina. O que será que ocorreu?

Diz-se que a história argentina, nas escolas, é omissa, mas, historiadores como Francisco Morrone, autor de “Los negros en el ejército: declinación demográfica e disolución”, tentam recuperar o legado histórico negro de seu país. Corrobora com ele, o historiador Álvaro de Souza Gomes.

O que se diz é que, a população negra  argentina diminuiu nos séculos XVII, XVIII e XIX, devido às guerras travadas na América do Sul, por territórios. O governo argentino convocava os escravos para lutar, sob a promessa de serem libertos no fim da guerra. Isso também ocorreu na guerra de secessão americana, com os negros sendo colocados na linha de frente, mesmo sem o devido preparo para lutar, e na guerra do Paraguai, o Brasil fez o mesmo.

A questão é que poucos escravos voltavam vivos, já que eram obrigados a lutar na linha de frente das batalhas, subnutridos, sem preparo, parar morrer aos milhares.

Então, houve sim, escravidão na Argentina, e sua imensa população negra desapareceu em massa, por diversas razões.

Sabemos que, no primeiro século, a capital argentina sobreviveu à custa do comércio negreiro. Nos séculos XVI até a primeira metade do XVII, a coroa espanhola drenava o ouro e a prata do Potosí, na atual Bolívia. Foi este o negócio que batizou o Rio da Prata – e foram principalmente mãos negras que tiraram das minas subterrâneas os metais que sustentaram a Europa (Anderson Hebreu). Para o europeu, era indigno que um branco fizesse uma série de serviços braçais e domésticos.

Como, então, explicar que uma população que compunha um quadro demográfico em pelo menos 50%, tenha sido reduzida para 4%, em média? 

Explicações:

1) Durante o século XIX todo, o país se meteu numa guerra após a outra. Contra invasões por parte de Inglaterra e França, pela Guerra da Independência seguida do banho de sangue da luta interna entre caudilhos pelo poder, e culminando com a Guerra do Paraguai, enfim, muitos negros enviados ao fronte, na linha de frente, para morrer. Eles eram os primeiros a levar tiros, às vezes de espingardas – muitas vezes servindo de isca para que o inimigo gastasse as balas de canhão. Durante as guerras de independência e, principalmente, durante a Guerra do Paraguai, o exército argentino recrutou forçosamente os negros forros em situação de miséria, prometendo a eles um soldo. Isso se tornou um atrativo para combater a fome, mas grande parte foi dizimada pela falta de treinamento, ao contrário dos brancos que já conviviam com a cultura militar há décadas.

2) Com a abolição da escravidão, na Argentina, em 1853, muitos negros foram deixados à própria sorte e a pobreza ficou extrema. Assim, muitos morreram de epidemias de cólera, hepatite etc.  Os negros libertos, vivendo em condições de extrema miséria em guetos, foram os mais afetados. Soldados argentinos impediam a saída deles dos bairros em que moravam, com medo de a epidemia se alastrar entre os brancos. Assim, eles morriam sem atendimento médico. O golpe final foi a grande epidemia de Febre Amarela em 1871, que se abateu sobre os bairros pobres de Buenos Aires, para onde os negros que sobraram foram transferidos.

3) O enorme fluxo migratório europeu, a partir de 1850, fez com que os recém-chegados substituíssem a mão de obra negra em fazendas e nas fábricas instaladas há pouco tempo naquela nação. E os casos de miscigenação eram muito pequenos perto do que vimos no Brasil. Os administradores hispano-argentinos, segundo alguns relatos, não eram habituados à prática sexual recorrente com as escravas.

4) Além da dizimação concreta, vivida pelas condições citadas anteriormente, a Argentina organizou uma dizimação na teoria, registrando todos os descendentes de escravos como brancos. O processo ficou conhecido como "política de branqueamento", e foi praticado no início do século XIX. Para o governo argentino, o desenvolvimento e o progresso do país estavam atrelados à cor da pele da população.

Muitas mulheres negras, com a ausência de homens da mesma etnia, casaram-se e tiveram filhos com brancos, inclusive com imigrantes europeus, que começaram a desembarcar no país, antes da metade do século XIX. Seus filhos, embora tivessem traços negros comprovados, eram registrados como brancos. "As estatísticas, assim, acabaram registrando um sumiço repentino de toda a população negra da Argentina", diz o historiador Álvaro de Souza Gomes Neto. "Todo argentino que não seja descendente de indígenas tem um traço de sangue negro, mesmo que em pequena proporção."

No período em que Buenos Aires ainda era capital da administração espanhola, as autoridades qualificaram algumas “raças” seguindo parâmetros discriminatórios, legando direitos e deveres diferentes perante a sociedade e a administração pública. Estas classificações eram utilizadas para estigmatizar as pessoas e impedir seu acesso social a bens comuns como educação e saúde, ou a entrada no exército (em períodos de relativa paz). Assim havia:

MULATO – negro com branco;
TERCERÓN – branco com mulato;
QUARTERÓN – branco com “tercerón”;
QUINTERÓN – branco com “quarterón”;
ZAMBO – negro com índio;
ZAMBRO NEGRO – negro com índio, cujo indivíduo tinha forte característica física africana;
SALTO ATRÁS – quando a criança mulata ou “tercerón” era mais negra que os pais. 

Somente em 2006 que o governo argentino decidiu fazer um censo-piloto, de sua população, levando em conta a população afro-descendente e indígena. O Centro de Genética, da Faculdade de Filosofia e Letras de Buenos Aires estimou que 4,3% da população de Buenos Aires tinham registros genéticos africanos. No Ano de 2010, outro Censo estimou em torno de 10 % de toda a população. 

Mas, ainda hoje, cerca de 85% dos argentinos se identifica como descendentes de imigrantes europeus, rejeitando qualquer traço africano, ainda que este exista. Muitos argentinos que se autodenominam brancos têm na verdade ancestrais africanos. Isso porque o racismo argentino é muito forte e evidente, em pleno  século XXI.

“É muito doloroso sentir-se um estrangeiro no seu próprio país”, confidencia Carlos Álvarez, negro, 39 anos, e presidente do coletivo Agrupación Xangô.

Sobre o desaparecimento da população negra dos registros, Miriam Victoria Gomes argumenta: "As guerras e as epidemias não dão conta de explicar esse fenômeno, por isso falamos de 'desaparecimento artificial', que está relacionado com a omissão deliberada da presença negra nos livros, nos meios de comunicação e na educação. Creio que a tentativa de ocultar os negros da história argentina se explica por uma mentalidade racista, colonial, capitalista e patriarcal".

“A verdade é que a história oficial da Argentina se deve à construção seletiva de seu passado, a partir de um processo de inviabilização dos povos africanos, teoria reforçada historicamente com a imagem de uma Argentina branca e européia, cuja formação e desenvolvimento acontecem sem a participação do africano e do afro-argentino”.

Sobre a inclusão da variável afro no censo nacional, Sandra Chagas, negra, 40 anos, e presidente do grupo de disseminação da cultura africana e afrodescendente, Movimiento Afrocultural, acredita que a campanha não despertou grande sensibilização e que a pesquisa não reproduz a quantidade real de negros vivendo na Argentina.

“Além da falta de conhecimento e da falta de consciência, houve negação por baixa autoestima e por medo. O negro na Argentina é sujo, o negro é baixo, o negro é uma merda. Como você vai se identificar com tudo isso? Conheço meninas que deixaram de sair de casa porque foram chamadas de negra na rua, pessoas negras que se suicidaram porque foram abusadas ou hostilizadas”.

“O censo foi um fracasso pra mim. Quando vieram a minha casa, eu disse ao pesquisador: ‘suponho que você tenha uma página onde tenha que anotar a quantidade de pessoas afrodescendentes e indígenas’. Mas o pesquisador me revelou que não sabia daquela orientação. Haviam três pessoas afrodescendentes na minha casa e eles não me perguntaram”, revelou Laura Omega, negra, 43 anos, cantora de jazz e militante independente da causa afro.

“Nossas mulheres negras, muitas vezes caminhando, são tidas como trabalhadoras sexuais. Quando jovem, comecei a usar saltos e maquiagem. Os homens se aproximavam de mim e perguntavam quanto eu cobrava. Acabaram com a minha juventude. Nunca mais coloquei um sapato de salto alto ou me maquiei. É como se toda mulher negra fosse prostituta”, lembra Laura.

“Se uma mulher negra vai a uma delegacia e diz que um homem branco a violou, nada acontece. Eles nada fazem”.

Na Argentina, amigos, em pleno século XXI, em 2015, é dito que: “não há nenhum legislador negro, não há nenhum deputado negro, não há nenhum apresentador de televisão negro, não há nenhuma atriz negra, não há nenhuma referência afro, em nenhum âmbito social e político”, ressalta Laura.

Mayara Moraes. Buenos Aires. Ano- 2015.

Eis aqui, amigos, um breve relato da condição do negro na Argentina. Para maiores informações, confira as fontes citadas logo abaixo, ou faça uma pesquisa particular, a fim de conhecer melhor o tema. Que os hermanos acordem para o mal que praticam, e se envergonhem de sua inferioridade enquanto nação, face ao seu irmão negro, e nós brasileiros façamos nossa parte, lutando contra o racismo, que ainda existe em nossa nação, para nossa vergonha também.

Poema Afro-argentino:


En medio de mi pueblo estoy aislado,
porque donde mi cuna se meció
con ímpetu arrojada de su lado,
una raza de parias ha quedado
y a aquella raza pertenezco yo.
Y ni patria tenemos, si existe,
de su seno nos supo conscribir;
las cargas sean para un hombre triste.
Y si un solo derecho nos asiste,
ha de ser el derecho de morir.
(Horacio Mendizabal, poeta afroportenho,1869)


Fontes:

Mayara Moraes. Estrangeiros no próprio país: a história dos afroargentinos. 2015. Publicação eletrônica. Disponível em: http://noticias.terra.com.br/mundo/america-latina/racismo-e-preconceito-conheca-a-historia-dos-negros-na-argentina,c865bcf0b6baa80e38f8046506f96d045h6hRCRD.html.

Acesso em 06 fev. 2016.

 

Cláudia de Castro Lima. Onde foram parar os negros da Argentina? 2005. Disponível em: http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/onde-foram-parar-negros-argentina-434210.shtml. Acesso em 06 fev. 2016.

 

Orlando Castor. A história dos negros argentinos: por que eles quase “sumiram” do mapa por lá? Publicação eletrônica. 2012. Disponível em: http://fatoefarsa.blogspot.com.br/2012/10/a-historia-dos-negros-argentinos-por.html. Acesso em 06 fev. 2016.


Anderson Hebreu. Blog Hebreu Suburbano. Existe sim, negro na Argentina. 2010. Disponível em: http://hebreu-suburbano.blogspot.com.br/2010/10/existe-sim-negros-na-argentina.html. Acesso em 06 fev. 2016.

 

Wikipédia, a enciclopédia livre. Afro-argentinos. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Afro-argentinos. Acesso em 06 fev. 2016.




Nenhum comentário:

Postar um comentário