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sábado, 20 de fevereiro de 2016

A Primeira Protagonista Negra, de uma Novela, na História da Televisão Brasileira.


Taís Araújo foi a primeira atriz negra a protagonizar uma novela brasileira, que fez sucesso em 1996 -1997, chamada Xica da Silva. E ela não parou por aí, sete anos mais tarde, em 2004, a atriz foi a primeira protagonista negra, de uma telenovela da Rede Globo, chamada "Da Cor do Pecado", onde interpretou a personagem "Preta". Em 2006, ela interpretou uma das personagens principais da novela "Cobras e Lagartos", e em 2009, protagonizou em horário nobre, da rede "plin plin", nada mais, nada menos que, uma das Helenas de Manoel Carlos, na novela "Viver a Vida".

Taís viveu ainda, a personagem "Maria da Penha", sua quarta protagonista, na novela "Cheias de Charme", e a quinta protagonista, com o papel da jornalista Verônica Monteiro, de "Geração Brasil", todas novelas globais.

Taís Bianca Gama de Araújo Ramos (1978), carioca, formada em jornalismo, é essa fascinante atriz, que desbravou um caminho a muito tempo fechado aos negros brasileiros. Ela conseguiu o que nenhuma mulher negra havia conseguido, até então, e foi muito além, consagrou-se, conquistou o público, e foi premiada,  em 2004, com o Kikito de melhor atriz coadjuvante, no Festival de Gramado, por seu trabalho em: “As Filhas do Vento. Em 2006, Taís atuou como apresentadora do programa Superbonita, do canal GNT. E, além do cinema e televisão, Taís Araújo trabalhou no teatro. Seu trabalho mais recente, na tv, foi na série “Mister Brau, onde atuou com o marido Lázaro Ramos, que também é um grande nome da televisão brasileira.



Em  2015, a atriz foi alvo de preconceito racial na internet. Sua resposta foi: 'Não vou me intimidar'. Outras  atrizes negras sofreram o mesmo. E ainda há quem diga que não existe racismo no Brasil. 

Mas, mudando um pouco o foco desta matéria, vamos falar sobre Chica da Silva, a mulher que deu origem à personagem que Taís interpretou, na novela de mesmo nome, em 1996.

Francisca da Silva de Oliveira (1732 - 1796 ), mais conhecida como Chica da Silva, foi uma escrava, posteriormente alforriada, que viveu em Diamantina, Minas Gerais, na segunda metade do século XVIII. Quando ainda era escrava, ela era tratada nos documentos oficiais, como "Francisca mulata" ou "Francisca parda", vez que, os escravos não tinham sobrenome, e normalmente eram diferenciados de acordo com seu grupo étnico, ou cor da pele. Contudo, em 1754, Chica da Silva já era identificada em documentos oficiais, como "Francisca da Silva, parda forra". O sobrenome "Silva", bastante comum no mundo português, era adotado, normalmente, por pessoas sem procedência ou origem definida, fato que indica que, ela conquistou sua liberdade por conta própria, sem apadrinhamentos ou conexões. Com o nascimento da primeira filha, Chica foi identificada no registro de batismo, como "Francisca da Silva de Oliveira", denotando um pacto informal com seu companheiro, o contratador de diamantes João Fernandes de Oliveira, com quem viveu por quinze anos, e com quem tive treze filhos.


Frisa-se que, a união consensual estável, de João Fernandes com Chica da Silva, não foi um caso isolado, na sociedade colonial brasileira, como alguns possam pensar, isto é, de envolvimento de homens brancos com escravas. Distinguiu-se porém, por ter sido público, intenso e duradouro, além de envolver um dos homens mais ricos da região, durante o apogeu econômico das Minas Gerais.

O fato de uma escrava alforriada ter atingido posição de destaque, na sociedade mineira, durante o apogeu da exploração de diamantes, deu origem a diversos mitos. E certamente foi baseado em muitos destes relatos, que Walcyr Carrasco encontrou inspiração para escrever a telenovela.


Em 1770, quando João Fernandes de Oliveira precisou retornar à Portugal, para receber os bens deixados, em testamento, por seu pai, ele levou consigo quatro filhos homens, que receberam educação superior, e ocuparam postos importantes, na administração do Reino. Eles receberam inclusive, títulos de nobreza, mas, João F. de O. Grijó, o filho mais velho de Chica, por exemplo, e que era o principal herdeiro do pai, sofreu por causa da cor escura que herdara da mãe. Isso representou um problema na hora de encontrar uma esposa, fato que o levou a casar-se aos 28 anos, com uma portuguesa humilde. Sobre o filho Simão Pires Sardinha, é dito que teve uma participação não esclarecida, na Inconfidência Mineira, e era nobre amigo do príncipe regente D. João VI.

Chica da Silva por sua vez, na separação do marido, ficou no Arraial do Tijuco, com as filhas, e com a posse de propriedades deixadas por João Fernandes. Isso garantiu-lhe uma vida confortável.Suas filhas receberam a melhor educação destinada às moças da aristocracia local, daquele período. Apesar de serem mulatas, muitas das filhas de Chica casaram-se com homens portugueses, denotando que a herança que receberam do pai garantiu-lhes dote razoável.

Chica alcançou prestígio na sociedade da época, e usufruiu de regalias que eram privativas das senhoras brancas. Prova disso, está no fato de ela participar de quatro irmandades religiosas, que na época, eram compostas de acordo com a posição social de cada pessoa. Ela pertencia às Irmandades de São Francisco e do Carmo, que eram exclusivas de brancos, pertencia às irmandades das Mercês, composta por mulatos, e do Rosário, reservada aos negros. Disso concluímos que, ela tinha renda para realizar doações para as quatro irmandades diferentes. 

Chica da Silva de fato, fazia parte da elite da época, composta quase que exclusivamente por pessoas brancas. Coisa que ainda não mudou totalmente em nosso país, em pleno século XXI, legado do período escravocrata, e do coronelismo antigo, em que se reserva aos homens e mulheres brancos as melhores escolas, o acesso às universidades, e em consequência, portas abertas ao rool das elites de nosso país, enquanto que, aos negros ex-escravos (afrodescendentes) resta viver nas periferias, sem acesso à educação de qualidade, resultando em uma escravidão moderna, a do sub-emprego. 

Felizmente, as cotas raciais diminuíram um pouco essa realidade, ao abrir vagas nas universidades, dado que o ensino público de base é precário e impeditivo de uma concorrência igualitária. Entre 2013 e o fim de 2015, a política afirmativa garantiu vaga a aproximadamente 150 mil estudantes negros. De acordo com dados do MEC, em 1997 o percentual de jovens pretos, entre 18 e 24 anos, que cursavam ou haviam concluído o ensino superior era de 1,8%; em 2013, esses percentuais já haviam subido para 8,8%. A norma instituiu reserva de 50% vagas em todos os cursos nas instituições federais de ensino superior levando em conta critérios sociorraciais. O objetivo era atingir esse percentual gradualmente, chegando à metade de vagas reservadas até o final de 2016. Entretanto, números divulgados pelo Ministério da Educação mostram que os objetivos estão sendo atingidos antes do previsto. Em 2013, o percentual de vagas para cotistas foi de 33%, índice que aumentou para 40% em 2014. Atualmente, entre universidades federais e institutos federais, 128 instituições já adotam a lei de cotas (dados do MEC).

Finalizando: Um dado curioso diz que, Chica da Silva foi dona de vários escravos, que cuidavam das atividades domésticas, de sua casa. Ela, faleceu em 1796, com direito de ser sepultada dentro da igreja de qualquer uma das quatro irmandades a que pertencia. Ela foi sepultada na igreja de São Francisco de Assis, a mais importante irmandade local, privilégio reservado quase que exclusivamente aos brancos ricos, o que demonstra que ela conseguiu manter uma condição social alta, mesmo vários anos após a partida de João Fernandes, para Portugal.

Ressaltamos que, embora os filhos de Chica da Silva tenham ascendido socialmente, ficou evidente que tiveram maiores dificuldades em se notabilizar, por conta de sua condição de mestiços. Eles muitas vezes tinham que esconder ou camuflar a origem negra e escrava de seu lado materno, nos processos de investigação familiar, pois naquele período, o mulatismo era impedimento forte, para quem desejasse ocupar cargos de prestígio.

Por fim, a trajetória da família de Chica da Silva revelou uma tentativa de "branqueamento" de sua linhagem, dado que, a sociedade preconceituosa do Brasil colonial criava fortes mecanismos de exclusão, com base na cor, raça e na condição de nascimento do indivíduo. De certa forma, isso não difere muito do que ocorre em pleno século XXI. Há inclusive, negros racistas, que não se permitem casar-se com negros, com objetivo de branquear os filhos. Neste caso, deve-se ter cuidado, para não julgar apressadamente, as pessoas, dado que, o casamento interracial é um direito de todos, uma condição normal. Em outras palavras, existem negros que se casam com brancos, sem a motivação racista. E toda forma de racismo, incluindo de negro contra branco, é um ato malévolo, que também deve ser combatido, afinal, almejamos um mundo sem racismo.

Neste ponto, pergunto à você, estimado leitor: 

Tal condição mudou? 

Digo, quanto à dificuldade de inserção do negro no mercado de trabalho. 

A verdade é que, ainda hoje, é difícil ver um negro comandando órgãos importantes como o STF. Citemos apenas um exemplo: Joaquim Barbosa recebeu notável prestígio e fama, pelo simples fato de, apesar de sua origem negra e humilde, ter conseguido alcançar o posto de ministro e presidente desta corte judicial brasileira (isso em 2012).


Fontes:

Wikipédia, a enciclopédia livre.Taís Araújo. Publicação eletrônica. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ta%C3%ADs_Ara%C3%BAjo. Acesso em 20 fev. 2016.

Wikipédia, a enciclopédia livre.Chica da Silva. Publicação eletrônica. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Chica_da_Silva. Acesso em 20 fev. 2016.

Wikipédia, a enciclopédia livre.Xica da Silva (telenovela). Publicação eletrônica. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Xica_da_Silva_(telenovela). Acesso em 20 fev. 2016.

Portal Brasil. Em 3 anos, 150 mil negros ingressaram em universidades por meio de cotas. 2015. Publicação eletrônica. Disponível em: http://www.brasil.gov.br/educacao/2015/11/cotas-elevam-presenca-de-negros-nas-universidades-federais. Acesso em 20 fev. 2016.

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