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quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

O Primeiro Palhaço Negro do Mundo foi também o Primeiro Ator Negro do Cinema Brasileiro.


Benjamim de Oliveira, nascido em Minas Gerais, no ano de 1870, foi um negro pioneiro na arte circense, que desenvolveu múltiplas capacidades, chegando à atuar como ator, cantor, instrumentista e compositor; habilidades que lhe conferiram, entre outros, o título de primeiro artista negro à atuar no cinema brasileiro. 

E tudo isso em um tempo em que o negro não tinha nenhum espaço, ou na máximo, tinha um espaço muito reduzido, na sociedade brasileira. De certa forma isso ainda não mudou, pois, quantos atores negros, você vê protagonizando filmes e novelas? Quantos presidentes negros tivemos no Brasil ? Quantos negros ocuparam o cargo de presidente do Supremo Tribunal Federal?

Note que, enquanto grande parte da população negra do Brasil, da época, sob a alcunha da Lei Áurea (recém sancionada ), ainda ardia sob o sol das plantações de café e cana-de-açúcar, ou vagavam sem destino, pelas ruas de barro batido, do interior do país; um talentoso e jovem negro, da cidade mineira de Pará de Minas, filho de escravos, desafiava o futuro que lhe aguardava, contrariando o seu próprio destino (Nabor Jr., 2010).

O nome dele é Benjamin Chaves, mais conhecido como Benjamin de Oliveira. Este artista brasileiro, compositor, cantor, ator, e pioneiro na arte circense, atuou a princípio como palhaço, e na verdade ele foi o primeiro palhaço negro do Brasil. E de acordo com o pesquisador Brício de Abreu, o primeiro palhaço negro do mundo (Geledés, 2009).


As poucas pessoas, que ouviram falar do talento deste brasileiro, devem saber também que, ele foi idealizador/criador do primeiro circo-teatro.

Benjamin de Oliveira (1870 - 1954) - Heróis de Todo Mundo


Benjamin Chaves foi um “negro forro”, cuja alforria, e de seus irmãos, veio após nascerem, já que sua mãe, Leandra de Jesus, era considerada escrava de estimação. Já, seu pai, Malaquias Chaves trabalhava buscando escravos fugitivos. Do pai, o jovem não guardava boas lembranças, pois, ele era um capataz, considerado por muitos, como um homem terrível, que batia no filho diariamente.

Mas, a infância deste homem, que se tornaria um grande artista, foi cheia de privações: muitas vezes - conta em suas memórias - “passávamos dias e dias comendo abóbora e fubá” (MUNDOCLOWN, 2007). Aos doze anos já tinha exercido diversas funções: “madrinha de tropa”, carreiro, candeeiro, guarda-freio, e ainda vendia bolo nas portas dos circos, que passavam pelo Arraial (Portal Museu Afro Brasil).

Aos 12 anos, Benjamin iniciou sua saga de “acrobacias pela vida”, fugindo de casa, com a "troupe" do circo Sotero. Trocadilho a parte, de fato Benjamim atuou por três anos, como trapezista e acrobata, antes de fugir novamente, porque apanhava do dono do circo. No entanto, esta não foi a última vez que teve de escapar, segundo o próprio Benjamim: “meu destino era fugir. Destino de negro...”. Certa vez, foi parar num grupo de ciganos, e é provável que tenha trabalhado como escravo, já que num episódio marcante de sua vida, descobre, através de uma moça do grupo, que os ciganos estavam pensando em trocá-lo por um cavalo. Ao fugir novamente, é abordado por um fazendeiro que, o considerou um escravo fugido. Para convencer o homem de que era livre e trabalhava como circense, Benjamim fez uma demonstração de suas habilidades artísticas, e foi autorizado a seguir sem rumo (Portal Museu Afro Brasil).

Apesar deste começo duro, Benjamim será um desbravador em diversas áreas de atuação artística, até então reservadas unicamente aos brancos. "Minha existência poderia ter ficado encoberta pelas muitas montanhas que encobrem as Minas Gerais se, um dia, uma trupe de circo não tivesse passado por lá", disse Benjamim certo dia (Geledés, 2009).

Após andar por várias vilas como mendigo, Benjamim encontrará trabalho num circo de um norte-americano chamado Jayme Pedro Adayme.

Mas, a estreia de Benjamim como palhaço profissional, ocorreu de forma quase acidental, quando, com cerca de vinte anos de idade, foi obrigado, por questões contratuais, a substituir o palhaço da companhia que havia adoecido. Segundo o próprio Benjamim relatou: “ eu tive que fazer o palhaço. E foi ali, na Várzea do Carmo, naquele barracão de zinco e tábua, que eu pela primeira vez apareci vestido de palhaço...” (Museu Afrobrasil). 

Nas primeiras apresentações, Benjamim obteve, no lugar de gargalhadas, vaias, grunhidos, desprezos, manifestações do grande público, que o consideravam sem graça, ou eram apenas preconceituosos mesmo. Lembrando que, tal época marcava o fim do regime escravagista, no Brasil. Felizmente, Benjamim transformou as críticas em conteúdo para seu trabalho prosperar. Resistiu transformando-se no principal nome da arte circense brasileira, da época. “E, um episódio que foi o estopim para seu sucesso, se deu quando jogaram em Benjamim uma coroa de palha. A reação do ator foi inesperada, mas, essencial para torná-lo irreverente e admirável. Recolheu a coroa e disse que, se Jesus Cristo usou uma coroa de espinhos, por que ele não haveria de usar uma de palha? Aplausos tomaram conta do picadeiro” (By: Baoobaa e Catraca Livre,2010).

Depois de passar por vários circos, este promissor palhaço foi trabalhar no circo Caçamba, do Rio de Janeiro, onde o então presidente da república - Marechal Floriano Peixoto - assistiu uma de suas apresentações (e fez questão de conhecê-lo). Surpreso com a apresentação de Benjamin, e a partir de uma ideia do dono do circo; o presidente da república resolveu transferir o circo, da favela, para a frente do Palácio do Itamaraty, na Praça da República. Tudo sendo transportado pelo Exército Brasileiro. Segundo Jeferson, do blog de mesmo nome, no final do espetáculo, assistido pelo presidente Marechal Floriano, Benjamim recebeu do presidente 5 mil réis, que seria utilizado na filmagem de: "O Guarany", e na montagem das peças: "Frankenstein" e "Otelo". O teatrólogo "Arthur Azevedo", disse, certa vez, o seguinte: “Quando Shakespeare fez Otelo, imaginou certamente um tipo como esse, que Benjamim representa com tanta força no seu pequeno teatro" (JEFERSON DE, 2006).

E, o grande Benjamim de Oliveira não parou por aí, ele escreveu diversas peças de sucesso. Foi então que, o aclamado rei dos palhaços do Brasil chegou a ser respeitado por homens de teatro respeitadíssimos como Procópio Ferreira. E, as múltiplas habilidades deste palhaço fizeram dele o primeiro artista negro a atuar no cinema brasileiro.

Em 1908, Benjamim atuou como protagonista, no papel de Peri, na peça-filme “O Guarani”, de Antonio Leal, inspirada na obra de José de Alencar. Essa atuação foi nada mais, nada menos que, a primeira filmagem de um romance de época, tendo em Benjamim, o primeiro ator brasileiro, a interpretar um índio, nas telonas.

Benjamim era de fato, muito versátil. Em 1921, criou a revista "Sai Despacho". Por volta de 1910, atuou como cantor, deixando inúmeras músicas gravadas, na Columbia.

Em entrevista, à Brício de Abreu, no ano de 1947, ele descreveu o circo em que havia trabalhado, em 1885, da seguinte forma:

"Em Mococa, encontrei um grupo trabalhando. O chefe do elenco se chamava Jayme Pedro Adayme. Era um norte-americano (...) trabalhávamos em ranchos de taipa, cobertos com panos velhos. Cada vez que mudávamos de cidade, vendíamos a parte da madeira, e levávamos apenas a parte do pano em lombos de burro (...) Andávamos por terra de cidade em cidade, de vila em vila. Raramente conseguíamos um carro de boi. Quase sempre em lombo de burro."

Certa vez, na Semana Santa, Benjamim representou o papel de Cristo, com o rosto pintado de branco (uma vez que era negro). O sucesso dessa ideia de conjugar teatro, com circo, foi como um divisor de águas, que abriu caminho para a popularização de clássicos, como “Otelo”, de William Shakespeare (1564-1616), e “A Viúva alegre”, de Franz Lehár (1870-1948). Ele reservava para si os principais papéis masculinos.

Provavelmente, por ser negro e circense, é que poucas homenagens são feitas ao incrível artista, nos dias de hoje, porém, Benjamim abriu caminho para gerações de artistas negros, como Grande Otelo, um de seus sucessores. Os parcos, ou quase nulos, registros acerca da vida e da obra do artista revelam o quanto a história do negro brasileiro é desconhecida da população. A professora e escritora Heloísa Pires Lima, autora do livro infanto-juvenil - “Benjamin, o palhaço da felicidade” - define o fenômeno como: “Amnésia Nacional” (Nabor Jr., 2010).

Ainda naquela época, após intensa campanha movida por jornalistas, para que Benjamim de Oliveira recebesse um auxílio financeiro do governo federal, o que ocorre? Ele, finalmente consegue, mas, pouco tempo lhe resta para usufruir da pensão, pois veio a óbito, em 03 de maio de 1954, aos oitenta e quatro anos, praticamente na miséria (Portal Museu Afro Brasil).

Benjamim, que significa - “Filho da Felicidade” - fez jus ao seu nome porque, levou, durante anos, a felicidade para o olhar (ator) e sorriso (palhaço) das pessoas.

Em entrevista concedida à revista: "O MENELICK 2º ATO – AFROBRASILIDADES & AFINS", Pires fala da vida e obra do palhaço negro, e reflete sobre a ausência de informações acerca das contribuições do negro na formação da identidade cultural tupiniquim. Acompanhe a entrevista em: 


Veja também, o livro: “Circo teatro - Benjamim de oliveira e a teatralidade circense no Brasil”. Autora:  Erminia Silva. 2007. Disponível em: 


No portal - Repositório da UFBA - vemos um artigo (título:  "DO MOLEQUE BEIJO AO MESTRE DE GERAÇÕES"), de Daniel Marques da Silva, que apresenta um perfil biográfico de Benjamim de Oliveira, destacando sua atuação na consolidação do circo teatro, prática artística híbrida, composta por melodramas, comédias, mágicas, revistas e pantomimas executadas como segunda parte da função circense.


Para finalizar, você pode ler uma breve explicação sobre a origem dos palhaços, no blog: 


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Fontes:

Marco Antonio dos Santos. Benjamim de Oliveira - palhaço negro. 2008. Disponível em: http://marconegro.blogspot.com.br/search?updated-min=2008-01-01T00:00:00-02:00&updated-max=2009-01-01T00:00:00-02:00&max-results=22. Acesso em 03 dez.2015.

Wikipédia, a enciclopédia livre. Benjamim de Oliveira. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Benjamin_de_Oliveira. Acesso em 03 dez.2015.

Geledés. Benjamim de Oliveira: O primeiro palhaço negro do Brasil. 2009. Disponível em: http://arquivo.geledes.org.br/atlantico-negro/afrobrasileiros/benjamim-de-oliveira/3768-benjamim-de-oliveira-o-primeiro-palhaco-negro-do-brasil. Acesso em 03 dez.2015.

Jeferson De. Tamo aí mandano brasa!2006. Disponível em: http://jefersonde.blogspot.com.br/2006/02/tamo-mandano-brasa.html. Acesso em 03 dez. 2015.


Nabor Jr. O FILHO DA AMNÉSIA NACIONAL. Disponível em: http://omenelick2ato.com/memoria/benjamin/. Acesso em 03 dez.2015.
Benjamim de Oliveira. Disponível em: http://www.mundoclown.com.br/benjamimdeoliveira. Acesso em 03 dez.2015.

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