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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

A Filosofia tem sua origem na África: Mito ou Realidade?



Existe uma crença comum, no ocidente, especialmente no mundo dos brancos, que a filosofia teve origem na Grécia. E este é um fato sério, que deve ser bem analisado, porque, segundo Asante:

A filosofia é a mais elevada disciplina.
Todas as outras disciplinas são derivadas da filosofia.
A filosofia “teria” sido criação dos gregos.
Os gregos são brancos,
Portanto, os brancos “seriam” os criadores da filosofia.

Entretanto, note os verbos condicionais: “Teria” e “Seria”.

Infelizmente,essa ideia está tão bem disseminada e aceita, que, praticamente, todos os livros de filosofia começam com os gregos, como se os gregos tivessem sido os predecessores do saber humano, isto é, as grandes mentes capazes de discutir conceitos de beleza, arte, números, escultura, medicina, organização social; em outras palavras, eles "teriam" sido as primeiras (e únicas) mentes daquela período, da história humana, que foram capazes de um estudo profundo, dos problemas fundamentais relacionados à existência, ao conhecimento, à verdade, aos valores morais e estéticos, à mente e à linguagem.

Na visão deste dogma, onde os gregos nos legaram o conhecimento (a filosofia), outras pessoas e culturas podem até mesmo, ter contribuído, de alguma forma, para o pensamento humano, a exemplo do chinês Confúcio; mas, não teriam contribuído para a constituição da base filosófica, afinal, o “amor ao conhecimento” veio da Grécia, exclusivamente. Diante disso, segundo tal raciocínio, os povos africanos podem ter religião e mitologia, mas, não filosofia, que é privilégio somente dos gregos (brancos), os pais da mais elevada das ciências (isto é eurocentrismo).

Mas, há um problema sério com esta linha de raciocínio, segundo Asante: “essa informação é falsa”. Algo parecido é dito por George Granville Monah James, no livro: “Stolen Legacy” (Legado Roubado). Veja nossa publicação do dia 29 de julho de 2015.

Portanto, retomando o raciocínio de Asante, essa noção de que a filosofia veio dos gregos é falsa. Vejamos: 

A ciência buscou a origem da palavra “filosofia”, na língua grega, mas, de acordo com muitos dicionários e etimólogos gregos, tal origem é desconhecida (isso se você está procurando a origem dessa palavra, na Europa, como a maioria dos europeus que escrevem livros sobre etimologia, fazem / eurocentrismo). Além disso, erra-se, quando não se leva em consideração o Zulu, Xhosa, Yoruba, ou amárico, concernente à conclusão, sobre o que é conhecido ou desconhecido. Veja que, a prática corrente, de nunca pensar na possibilidade, de um termo usado por uma língua europeia, poder ter sua origem na África, é um erro grave.

Expliquemos: literalmente, Filosofia “seria” uma palavra do grego, de "Philo", que significa irmão ou amante; e "Sophia", que significa sabedoria ou sábio. Assim, um filósofo é chamado de: "amigo da sabedoria". Entretanto, a origem do termo - "Sophia" - vem, claramente, de uma língua africana (Mdu Ntr),  que foi a língua do antigo Egito, onde a palavra "Seba", que significa "sábio", aparece pela primeira vez, em 2052 AC, no túmulo de Antef I (isto é, muito antes da existência da Grécia ou do grego). Então, a palavra virou "Sebo", em copta, e "Sophia", em grego. No termo filosofia - o amante da sabedoria - temos então, e precisamente, o "Seba," que é o mesmo que "sábio", conforme se pode provar, a partir de escritos encontrados em tumbas egípcias, muito antigas.

E, segundo alguns escritos do grego Diodoro, da Sicília, datados do século I AC, a respeito do Egito antigo: muitos dos sábios celebrados entre os gregos, aventuraram-se indo para o Egito, na antiguidade, com o objetivo de aprender com os costumes e ensinamentos egípcios. Isso se comprovou, a partir de registros encontrados em livros sagrados, da antiguidade egípcia, em que os sacerdotes egípcios notificaram (registraram) a visita de alguns gregos (para nós hoje, muito ilustres) ao Egito; tais como: Homero (o poeta), Platão (o filósofo), Pitágoras (o matemático), Orfeu, Musaeus, Melampos, Daedalos, Licurgo de Esparta, Solon, o ateniense, Eudoxo, Demócrito de Abdera e Oenopides de Chios.

Obviamente, muitos outros gregos da época, também aventuram-se pela África, exatamente pelo mesmo motivo, buscar aprendizado. Eles iam estudar a filosofia egípcia, porque os gregos admiravam os homens e mulheres egípcios, conhecidos no mundo antigo, por serem dotados de grandes habilidades e conhecimentos (lembram de Imhotep? fizemos uma publicação sobre ele no dia 18 de outubro de 2015). E os egípcios, por sua vez admiravam os etíopes, pelo seu grande saber.

Segundo Heródoto, em escritos datados do século 5 a.C, Livro II - História, os etíopes diziam que os egípcios eram nada além de uma colônia de etíopes. Mas, é claro, que, segundo nos relata Asante, autor deste texto, o que vemos hoje é um sistema de descrença relativa à história, experiências e conhecimentos dos povos da África, que surgiu nos últimos quinhentos anos da conquista europeia. Veja que, essa retórica de negação da capacidade e inteligência africana foi desenvolvida em solo europeu, para acompanhar a desapropriação da África (usurpação de seu legado material e intelectual, acompanhado da destruição de sua identidade, para melhor dominar). E isso foi feito para caminhar junto com a conquista europeia da África, Ásia e América, pois, a colonização não era apenas uma questão de terra; era uma questão de colonizar informações sobre a terra. Faço uma pausa para sugerir que você leia: “A Ciência Não é Branca”, publicação de 18 de outubro de 2015; e a postagem: “Historiadores admitem: os antigos impérios africanos de Gana, Mali e Songhay já haviam desenvolvido sociedades científicas, antes dos europeus”, do dia 21 de outubro de 2015.

Em suma, Asante explica que, antes da Europa entrar na era do iluminismo, do renascimento intelectual, os gregos já viajavam para estudar, na África. E depois disso, eles voltavam para a Grécia, onde criaram a "Era de Ouro" grega. Não foi antes, mas, depois de terem estudado no Egito, que esses gregos alcançaram algum conhecimento, de fato, mais avançado. Repito: eles tinham que ir para a África e estudar com os sábios do antigo Egito, que eram negros, a fim aprenderem medicina, matemática, geometria, arte, e assim por diante. E isso, muito antes de haver, até mesmo, qualquer civilização europeia.

Talvez você pergunte: Por que os filósofos gregos estudaram na África?

Thales, o primeiro filósofo grego, e o primeiro que é lembrado por ter estudado na África, dizia que aprendeu a filosofia dos egípcios. Então, os gregos estudaram no Egito, porque esta era a capital educacional do mundo antigo.

Pitágoras é conhecido por ter passado pelo menos, vinte e dois anos, na África, estudando. Em vinte dois anos, pode-se obter uma boa educação, talvez até mesmo um Ph.D.

Sabemos então, que os gregos buscavam o conhecimento filosófico, que os africanos possuíam. Quando Isócrates escreveu seus estudos, no livro Busirus, ele disse o seguinte: "Estudei filosofia e medicina no Egito." Veja que, ele não estudou estes assuntos na Grécia, na Europa, mas, sim, no Egito, na África.

Dito estas coisas, vemos que não somente a palavra filosofia não é grega, como a também, a prática da filosofia já existia, muito antes dos gregos, lá na África. Imhotep, Ptahhotep, Amenemhat, Merykare, Duauf, Amenófis, Akhenaton, e o sábio de Khunanup, são apenas alguns dos filósofos africanos, que viveram muito antes de existir uma Grécia ou um filósofo grego.

Quando os africanos terminaram de construir as pirâmides do Egito, em 2500 aC, se passariam 1.700 anos, antes do surgimento de Homero, o primeiro escritor grego.

E quando Homero aparece, e começa a escrever a obra - A Ilíada - não se passa muito tempo antes que, viesse a registrar o que aconteceu ou estava acontecendo na África: “os deuses gregos estavam reunidos na Etiópia”. De Homero é dito ter passado sete anos, na África. Mas, o que ele poderia ter aprendido com os sábios professores do Egito, em sete anos? Ele poderia ter aprendido leis, filosofia, religião, astronomia, literatura, política e medicina. Porque tais coisas foram desenvolvidas, e eram ensinadas pelos egípcios, um povo africano.

Saiba: os africanos não esperaram pelos gregos, ou por outro europeu qualquer, para descobrir como construir as pirâmides, que até hoje despertam curiosidade, devido a sua complexidade, um verdadeiro feito grandioso e misterioso (como transportavam e erguiam imensas toneladas de pedra?). Você por acaso pode imaginar os egípcios em pé, em volta de pedreiras, ou nas margens do Nilo, no ano 2500 aC, especulando sobre quando algum europeu viria ajudá-los a medir a terra, calcular largura e profundidade, determinar a helicoidal exato crescente de Serpet (Sirius), e a inundação do Nilo, ou mesmo para diagnosticar doenças, lembrando que, os egípcios eram exímios anatomistas, arte que aprenderam, possivelmente, com a prática da mumificação.

Segundo Heródoto, em Histórias, livro II, os Colchians eram como os egípcios, "eles tinham a pele negra e cabelo lanoso (como lã)". Disse Aristóteles, em Physiognomonica, que: "os egípcios e os etíopes são muito negros". Neste ponto sugiro que você lei a publicação do dia 31 de julho de 2015, cujo título é: “(01) Os Egípcios da antiguidade eram negros, e isso pode provar que Jesus Cristo também era”.

Liderados pelo egiptólogo e historiador africano, Cheikh Anta Diop, um novo e interessante número de estudiosos surgiu, desafiando todas as mentiras que foram ditas, sobre a África. Eles são os únicos que, como o poeta Haki Madhubuti disse: “são os padrões reais de coragem e compromisso” (eu acrescentaria: sabedoria e verdade).

Em 1974, numa conferência que ocorreu no Cairo, patrocinada pela UNESCO, sobre o "Povoamento do Egito", estes dois negros - o Diop e o Théophile Obenga - foram destemidos, determinados e revolucionários, em suas apresentações, de forma que, quando acabaram de dissertar, a respeito dessa "nova" teoria, baseada em estudos e provas cabais, conseguiram quebrar todas as mentiras, até então ditas, sobre o legado intelectual africano. 

Usando ciência, linguística, antropologia e história, estes dois gigantes acadêmicos (intelectuais negros), demonstraram que, os antigos egípcios eram negros. Foi usado um teste de melanina, feito na pele de uma múmia egípcia, no qual se verificou tratar-se de uma pessoa com caracteres negroides, também realizaram observações da arte registrada em paredes dos túmulos egípcios, que retratavam o aspecto físico, destes antigos egípcios, e notou-se ainda, muita semelhança linguística, existente entre o idioma do Egito antigo com as línguas africanas, e por fim, analisou-se alguns testemunhos de antigos egípcios, nos quais estes relatavam como viam a si próprios, de como eles caracterizavam a si próprios; neste caso, eles usavam uma palavra que significa: "preto", para descrever seus caracteres físicos.

É tão simples, que eu não entendo como podem errar, nesta questão, os especialistas, uma vez que, os próprios gregos da antiguidade sabiam muito melhor do que a atual safra de europeus, que os antigos egípcios, antes da chegada dos gregos, romanos, árabes e turcos, eram africanos, negros-africanos.

A cor negra dos antigos egípcios só perde a importância, ou é veementemente negada (nas raras vezes em que vem à tona), quando gente branca racista e leiga defende a teoria de que os africanos não poderia ter construído as pirâmides, porque seriam um povo sem conhecimento, sem passado, sem história, e sem grandes feitos. Mas, a verdade é que (e esta não pode ser contestada, desmentida, ou refutada) os egípcios eram africanos, homens e mulheres de pele negra (vermelha, morena), com cabelos lanosos (semelhante à lã).

Finalizando: a filosofia começou primeiro com as pessoas de pele negra, do vale do Nilo, em torno de 2800 aC, ou seja, 2200 anos antes, do aparecimento de Tales de Mileto, considerado o primeiro filósofo ocidental.

Lembre disto: há cerca de 30.000 anos atrás, os ancestrais africanos, já estavam separando ocre vermelho, de ferro, em uma caverna africana. Então, eles necessariamente tinham que ter alguma ideia sobre o que estavam fazendo. Tinha que haver alguma reflexão, algum processo pelo qual os anciãos determinaram o que era para ser usado, para o que, e em que ocasião. Assim, antes mesmo de qualquer registro escrito ter sido feito, temos provas cabais de que, os ancestrais africanos, em épocas muito remotas, estavam envolvidos em discussões, ações empíricas e constatações, muito significativas, a respeito da natureza do seu ambiente.

Texto do Dr. Molefi Kete Asante.

Molefi Kete Asante, autor desta publicação, é um dos estudiosos contemporâneos mais lidos e publicadas (tendo escrito mais de sessenta livros e trezentos artigos).

Acompanhem o trabalho dele em:


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