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quinta-feira, 26 de novembro de 2015

POEMA PRETA

O Blog de Lilian Solá Santiago - Poema Preta - traz lindos poemas de Anastácia (salvo ledo engano, ela foi uma escrava, que é cultuada até hoje, pela realização de milagres).



Abaixo conto a história desta escrava, cujo talento fica patente em alguns poemas aqui expostos. Ressalto que não tenho certeza se a santa Anastácia é a mesma poetisa aqui citada. Indico também, o endereço do blog onde você pode ver outros destes versos raros e refinados. 

"Poeta peculiar, negra Anastácia é uma entidade que acima de tudo preza a palavra. Ela brinca com as letras e com o mundo ao seu redor, e se define poeta: é como gosta de ser chamada. Tão difícil de explicitar quanto o próprio sentido por trás das palavras, resta apenas perceber a energia emanada de seus versos, que provocam e orientam seus leitores" (Editora Kazuá). 

“Para ela, a poesia é o barro da vida. Somos as palavras. Para cada fragmento de história, há uma rima. Para cada retrato do cotidiano, há um verso, um cântico. Para cada lágrima ou bofetada, há uma metáfora. Estamos refletidos nas águas deste lago de letras. (…) E se algum leitor se sentir identificado é porque também pode ser um coautor deste livro (Poema Preta, de Negra Anastácia)...já sentiu sangrar a pele, já riu, já existiu, já morreu, já renasceu.” (Adriana Azenha).

Escrava Anastácia (1740 - data e local de morte incertos) é uma das mais importantes figuras femininas da história negra (uma mártir), que é cultuada no Brasil e na África, pela realização de supostos milagres. Isso, apesar de ter a sua existência colocada em dúvida, pelos estudiosos do assunto (em virtude da escassez de dados disponíveis a seu respeito). 

Eu, mulher negra, nascida escrava, sem nação definida, sofri na carne, na alma e em todas as reentrâncias, a fúria humana, desumana, insana, que vocês talvez, espero, nunca tenham sentido, sintam, sentirão. Um pouco dessas marcas estão aqui, sob forma de palavras (Anastácia).

Os restos mortais de Anastácia foram sepultados na Igreja do Rosário (RJ), porém, sumiram após um incêndio, fato que aumentou as dúvidas a respeito de sua história.

Muitas entidades católicas estão unidas no propósito de solicitar ao Papa a beatificação desta santa guerreira africana, que um dia foi perseguida e contestada pela igreja, que hoje a cultua.

A crença no poder de cura de Anastácia teria iniciado a partir de uma exposição na Igreja do Rosário (RJ), em comemoração dos 80 anos da Abolição, em 1968, ocasião em que Étienne Victor Arago mostrou um desenho do século XVIII, que representava uma escrava com Máscara de Flandres (a máscara não permitia a alimentação, nem a comunicação, permitia somente enxergar e respirar). A jovem escrava se comunicava com os olhos.

Da mulher fez-se o homem, e deles o verbo e a dominação. Eu, da palavra quero a libertação (Anastácia).
 
Ironia do destino o filho do seu senhor caiu doente, sem previsão de cura, em desespero recorrem a escrava curandeira, pedindo pela cura do filho, o qual se realiza para o espanto de todos. Por esse motivo, e depois de muito tempo de tortura e maus-tratos sofridos, logo depois da cura do filho de seu algoz, a escrava bonita e sofrida sofre uma gangrena (no pescoço/gargantilha de ferro e boca/máscara), sendo levada para o Rio de Janeiro, para ser tratada. Termina então, a vida de sofrimento de uma jovem guerreira de rara beleza (1838). Foi pela autorização do feitor e da sinhá, velada na capela da fazenda. Seu senhor, também levado pelo remorso, providenciou-lhe um enterro como escrava liberta, depois de morta, sendo sepultada na Igreja construída pelos seus irmãos de dor, em cujo funeral foi acompanhada por dezenas de escravos irmãos de luta e sofrimento.


NASCI



Nasci onde a galinha ciscou

comi o que ela botou

morri como ela

sangrando em suas penas (Anastácia).
 

Lamentavelmente, a igreja do Rosário (RJ) foi destruída por um incêndio, levando à destruição dos poucos documentos que poderiam nos oferecer melhores e maiores informações sobre a “Escrava Anastácia” - “Princesa Bantu” - “A Santa, mártir e heroína negra”.

Ao perfil de guerreira que resistiu aos maus tratos da escravidão, modelo de liderança e resistência, soma-se o de milagrosa, cultuada por milhões de brasileiros católicos devotos.


Oração da Escrava Anastácia



Por Misael.



Vemos que algum algoz fez da tua vida um martírio, violou tiranicamente a tua mocidade, vemos também no teu semblante macio, no teu rosto suave, tranquilo, a paz que os sofrimentos não conseguiram perturbar.



Querida Anastácia: eras puras, superior, tanto assim que Deus levou-te para as planuras do céu e deu-te o poder de fazeres curas, graças e milagres.



Amada Anastácia, pedimos que (fazer o pedido), roga por nós, proteja-nos, envolva-nos no teu manto de graça e com teu olhar bondoso, firme, penetrante, afasta de nós os males do mundo.



Tudo que pedimos por Nosso Senhor Jesus Cristo na unidade do Espírito Santo.



Amém.



Mais Poemas 
Veja abaixo desta resenha:


FEDE


Dizem que mulher negra é diferente da branca

porque é suja e cheira mal.

Isso é que enlouquece os homens todos

(de qualquer cor)


Pra  quê tanta água de cheiro, branquinha,

se nos grandes lábios o nariz do teu homem não chega? (Anastácia).

CENA 
 
A barca, a carga, a marca no negro torso.

A alma, a palma, a lama nos pés mulatos

A cara, a casa branca, a senzala junto ao curral

Curra o negro

Cura o açúcar, o cacau, o café pro sinhô ganhá mais e te matá, povo de Guiné

Tanto trabalho preto, tanto ouro, pra quem é?

Sinhazinha gasta tanto, sapato no pé, sombrinha na mão, corrente camafeu.

Três nêgas limpando o chão
(Anastácia).
 
BRINQUEDO


A bola de meia velha

que meus pés não gastaram,

não gastam, não gastarão,

passa em meus dedos infantis

como um sonho-terremoto.

Sem controle

treme o corpo que apanha da menina.

Tão lambidinha ela, tão branquinha,

pele e roupa

e obscuro olho de rezar.

Minha dona é pérfida menina.

Me penteia

arrancando fio a fio

grossas somas de caracóis negros.

Depois,

laço no cabelo, sim.

Sapato!

Nem meia

Boneca escrava é sem luxo
(Anastácia).


NEGA 


A criança só é quando brinca.

Eu fui macaca doente

brincava de morder gente.

Fiquei muda  e sem dente

virei brinquedo do filho e do patrão

Escrava da escuridão.



No meu corpo tombada

de dia servia,

de noite gozava.

Já que meteu na nêga,

vou brincar de cair na cilada
(Anastácia).
 


ÓDIO DE MÃE


 Meus donos os foram muitos

- os que me possuíram

- os que me julgaram

- os que me mandaram

- os que me bateram

- os que me ignoraram

- os que me humilharam

- os que me faleceram



Homens sujos, sem caráter.

Medíocres, burros.

Nunca souberam que minha mãe

mora dentro de mim

e a tudo provê.



Minha mãe é o ódio de não ter morrido ainda botão

E se não morri, é da mãe-ódio

o alimento de minhas veias

E a cada dia vivo mais.

O ódio cresce e não me deixa morrer.

É esse meu orgulho.

Ficar aqui nesta terra.

Viver o não-viver
(Anastácia).
O paraíso é o sono quando não sonho
O sono sem sonho é real, talvez como a morte 
Talvez deitada e para sempre, exposta ao nada, descanse
 O corpo entrega-se ao vazio do ser, a inexistência confirmada no escuro 
Não me sei, nem quero sê-lo, nem carta, nem alforria 

Que bom nada ser a cada novo dia 
(Anastácia).

Veja outros poemas na página Poema Preta.
 
Fontes:


Thaís Nascimento. Anastácia: resistência negra santificada. 2013. Disponível em:

Wikipédia, a enciclopédia livre. Escrava Anastácia. Disponível em:
Acesso em 26 nov.2015.

Anastácia. Escrava Anastácia. Disponível em:

Lilian Solá Santiago. POEMA PRETA. Disponível em:
http://poemapreta.blogspot.com.br/. Acesso em 26 nov.2015.




Paz!


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