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sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Monteiro Lobato era racista?

Monteiro Lobato, racista empedernido, foi o título de um artigo, do Carta Capital, de 18/05/2013. Mas, será que a acusação é verdadeira? 

 O texto de Mauro Dias (supracitado) falava de um estudo, que teria comprovado esse racismo, a partir de evidências que demonstraram a admiração do escritor (M. Lobato) pela KuKluxKlan (KKK). 

 KuKluxKlan (para quem não sabe) é o nome dado às organizações racistas, dos Estados Unidos, que apoiavam a supremacia branca (também chamada de WASP, sigla em inglês para protestantes brancos anglo-saxões) ...A KKK, em seu período mais forte, usava métodos violentos contra os negros (torturas, incêndios criminosos, assassinatos...).

Uma curiosidade sobre a KKK: o nome dessa ordem criminosa, cujo registro mais antigo é de 1867, parece derivar da palavra grega kýklos, que significa "círculo", "anel". Há também, a palavra inglesa clan (clã), escrita com k. E, devido aos métodos violentos utilizados pela KKK, há a hipótese de o nome ter sua inspiração no som feito quando se coloca um rifle pronto, para atirar. Dizem também, que o nome pode ter vindo de um templo maia, chamado kukulcán, onde, segundo os maias, "kukul" significa sagrado ou divino, e "can" significa serpente. Mas, não existem dados que comprovem isso. 

Continuando: o estudo que citamos anteriormente, comprovou que Monteiro Lobato era profundo admirador desta entidade terrorista. 

Segundo a publicação eletrônica, Carta Capital, a revista Dados - publicação acadêmica editada pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipesp-Uerj) - resgata na edição 56, a polêmica de 2010, em torno das obras infantis do escritor Monteiro Lobato. 

O Artigo assinado pelos professores João Feres Júnior, Leonardo Fernandes Nascimento e Zena Winona Eisenberg não deixaria dúvidas: “os contos escritos por Monteiro Lobato disseminam preconceito”. E se assim for, devemos repensar (acabar com) a adoção desta literatura, nas escolas. 

Vamos mostrar três evidências apresentadas pelos autores do estudo

1. Monteiro Lobato foi membro da Sociedade Eugênica de São Paulo, e amigo pessoal de expoentes da eugenia no Brasil, como os médicos Renato Kehl (1889-1974) e Arthur Neiva (1880-1943).

Eugenia é um termo criado em 1883, por Francis Galton (1822-1911), para designar "bem nascido". Segundo Galton, que foi influenciado pela obra de seu primo Charles Darwin (a partir do livro: “A Origem das Espécies” que fala da seleção natural), a eugenia é o "estudo dos agentes sob o controle social, que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais, das futuras gerações, seja física ou mentalmente".Trocando em miúdos: eis aí, o pai da eugenia nazista, que pregava a "pureza racial", onde raças brancas eram consideradas superiores, e as inferiores (negros, ciganos, judeus) não deviam existir? 

Em carta escrita por Lobato, para Neiva, em 1928, encontra-se o seguinte: “Paiz (país) de mestiços, onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan, é paiz perdido para altos destinos. André Siegfried resume numa phrase as duas attitudes. ‘Nós defendemos o front da raça branca – diz o Sul – e é graças a nós que os Estados Unidos não se tornaram um segundo Brazil’. Um dia se fará justiça ao KluxKlan (...) que mantem o negro no seu lugar”.

2. No livro - Caçadas de Pedrinho - de M. Lobato, é possível encontrar o seguinte: “Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão, pelo mastro de São Pedro acima, com tal agilidade, que parecia nunca ter feito outra coisa na vida...”; ou este outro: “Não vai escapar ninguém, nem tia Nastácia, que tem carne preta”.

3. No livro - Reinações de Narizinho - de M. Lobato, Nastácia é chamada “negra de estimação”, e o autor vai além, ao citar Nastácia “56 vezes, usando o termo a negra”. Neste último, pergunta-se: será que ele o fez de forma pejorativa?

Já em outro artigo, de autoria de Maíra Althoff De Bettio, é dito que M. Lobato não era racista, mas, foi assim confundido, porque usava palavras ambíguas. Segundo a opinião da senhora Bettio, Lobato não passava de alguém que representava a realidade brasileira, em suas obras. 

Agora vamos analisar outros argumentos, a favor de Monteiro Lobato.
 
Segundo Luis Nassif,  o autor naturalmente, era regido pelo pensamento da época. 

Vejamos:

Um dos personagens de Monteiro Lobato foi Nastácia, que era uma negra serviçal (doméstica), que trabalha na casa de uma família matriarcal branca, e passava a maior parte do tempo na cozinha... (triste realidade, mas, sempre foi assim, os negros herdaram das senzalas o destino das periferias e nos presídios..., que dizer das novelas e filmes, então? que retratam um mundo lindamente branco, como se nosso país não fosse negro, mestiço...). 

No caso da boneca de pano, de M. Lobato, vê-se uma Emília mal educada! Em um trecho da obra do autor, Emília retruca, de forma rebelde: “...coisa mesmo de negra beiçuda, como Tia Nastácia... 

Imaginem uma criança afro-brasileira lendo um livro, com passagens deste tipo: Pedrinho, neto de Dona Benta, dona do sítio (a hierarquia também está presente), diz: “...as negras velhas são sempre muito sabidas. Mamãe conta de uma que era um verdadeiro dicionário de histórias folclóricas, uma de nome Esméria, que foi uma escrava de meu avô”.

Será que o MEC - Ministério da Educação (que tem o livro: Caçadas de Pedrinho, no catálogo do Programa Nacional Biblioteca na Escola) deve repensar a adoção de uma literatura infantil, que aborda de forma lúdica, um tema que é vergonhoso, para a história brasileira (escravidão)? Hum? Afinal, os pequeninos leitores da obra de Monteiro Lobato estão com o caráter, ainda em formação. Mas, veja o que diz o pesquisador de literatura infanto-juvenil, e coautor do livro “Monteiro Lobato - Livro a Livro” -  Luís Ceccantini: 

"Querer censurar ou modificar, em algum grau, uma obra cultural, é um absurdo." Para o estudioso, a forma pela qual as crianças absorvem o que leem, leva à seguinte conclusão: “as crianças sabem identificar os excessos dos livros. Elas se apegam ao que é bom, à essência das histórias - e, no caso de Lobato, essa essência não é racista." 

Confira uma entrevista com o pesquisador, em:

http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/pintar-monteiro-lobato-como-racista-e-um-equivoco/. 

Um pedacinho do que você verá na entrevista.

O que o senhor acha da tentativa de banir a obra de Monteiro Lobato das escolas públicas?

“Trata-se de analfabetismo histórico, que despreza o tempo em que determinadas obras foram escritas. Querer censurar ou modificar em algum grau uma obra cultural é um absurdo. Deve-se ainda observar outra questão: temos de fato uma educação tão deficitária a ponto de os professores serem incapazes de ajudar os alunos a interpretar passagens que eventualmente façam uso de uma linguagem que já não é mais aceita? Por que não usar esse pretexto para discutir em sala de aula o racismo? É uma grande oportunidade.”

Outra pessoa que defende Monteiro Lobato é Maíra Althoff De Bettio, ao afirmar que, no conto ‘Negrinha’, o escritor “denuncia crueldades presentes no escravismo”. 

Veja agora, uma passagem deste livro, e conclua por si: "Negrinha era uma pobre órfã de sete anos. Preta? Não; fusca, mulatinha escura, de cabelos ruços e olhos assustados." Temos aqui, algum estereótipo e preconceito?    

Então, quem está com a razão?

Luis Nassif, do GGN, responde: “Monteiro Lobato foi um homem do seu tempo”, que selecionava quais elementos culturais preferia e quando podia ou não valorizar a mistura cultural brasileira. Ele agiu como vários intelectuais agiam, apesar de toda erudição; “sendo capazes de ingenuidades, que as gerações posteriores condenarão”. Nassif exemplifica sua tese, citando o caso de Voltaire e o “déspota-esclarecido” ou a posição da elite intelectual europeia e o comunismo nos anos sessenta. 

Mas, e a palavra de apreço de Monteiro Lobato, pelo KKK?

Nassif, mais uma vez, responde: ...não há dúvida da simpatia de Lobato pela eugenia. Mas, isso não faz dele um quase Nazista, coisa sugerida por alguns, pois a eugenia era apenas conivente ao pensamento nazista, não uma de suas causas... Nassif continua: a eugenia estava, naquela época, ligada ao conceito da superioridade cultural européia... [e] as leituras europeias viam o Brasil como um fracasso garantido, pelo alto grau de miscigenação, que ocorria aqui. [Agora vem o “x” dessa explicação] ...a eugenia gozou de grandes simpatias pela elite intelectual, que claramente, tinhas grandes tendências europeias. É essa a eugenia que agrada Lobato, que segue a moda de seus “pares”. [Ela] nada tem a ver com a eugenia nazista, com o foco na biologia e manipulação genética (pelo menos é o que conclui o autor do GGN). 

Dito isso, o próprio Luiz Nassif, reconhece: “realmente, o elogio que Lobato faz à KKK não é louvável. Ainda assim, devemos compreender o que significa esse elogio”. Para Nassif, a visão que havia da KKK, no passado, é completamente diferente da visão que temos hoje... A KKK que Lobato elogia não é a legião de assassinos encapuzados. É uma ordem de senhores de terra, moralizantes, cristãos, ocupados em organizar a sociedade. Elitistas e conservadora, sem dúvida”. 

 O autor do GGN acrescenta que, não é difícil encontrar no discurso de Lobato repúdio à superioridade da raça branca. Nassif cita uma história de Monteiro Lobato, que não condiz com alguém queimando cruzes e usando lençóis brancos. Em: “A violeta orgulhosa”, publicada na obra “Histórias diversas”, uma Violeta nasce branca e por isso se considera superior às outras, sendo então, reprimida por Emília e Visconde. A boneca chega a dizer: “Incrível que, até entre as flores haja estes sentimentos baixos, tão comuns entre as criaturas humanas” – Histórias diversas, pág.63. Veja que, de fato, os sentimentos aí citados como “baixos” são o de que a cor que temos (nascemos) pode nos tornar superiores, e semelhante opinião não parece ser expressão de um autor verdadeiramente seguidor da KKK, parece? ... Nassif ressalta que, neste debate, em particular, a polêmica se mantém, não em torno de Monteiro Lobato, que não está sendo avaliado. O parecer se refere somente a única obra (uma em particular). 

Veja que, na obra: “História do mundo para crianças”, de Monteiro, é possível encontrar passagens incompatíveis com uma possível visão racista do autor:

“Aqui no Brasil tínhamos também, esse cancro da escravidão – e para a vergonha nossa fomos o último país do mundo a acabar com ela.” – Pg. 165. 

“A diferença única é que a história é escrita pelos ocidentais e por isso torcida a nosso favor. Vem daí considerarmos como feras os tártaros de Gêngis-cã e como heróis, com monumentos em toda parte, aos célebres ‘conquistadores’ brancos. Na verdade, porém, manda dizer que, tanto uns como outros nunca passaram de monstros feitos da mesmíssima massa, na mesmíssima forma.” – Pg. 132. 

Mais explicações de Luiz Nassif, você encontra em sua página, no Jornal GGN, em: http://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/monteiro-lobato-e-a-questao-do-racismo

Diante do exposto, quem se atreve a concluir pelo sim, ou pelo não? 

Quem pode realmente, voltar no tempo e conhecer o Lobato, pessoalmente, para saber se ele era ou não, um racista empedernido?

Fontes:


Mauricio Dias. Monteiro Lobato, racista empedernido. 2013. Disponível em: http://www.cartacapital.com.br/revista/749/monteiro-lobato-racista-empedernido. Acesso em 05 nov. 2015

Marisa Lajolo. A Figura do Negro em Monteiro Lobato. Disponível em: http://www.unicamp.br/iel/monteirolobato/outros/lobatonegros.pdf. http://www.infoescola.com/literatura/o-negro-nas-obras-de-monteiro-lobato/. Acesso em 05 nov. 2015.

Luiz Nassif. Monteiro Lobato e a questão do racismo. 2013. Disponível em: http://jornalggn.com.br/blog/luisnassif/monteiro-lobato-e-a-questao-do-racismo. Acesso em 05 nov. 2015.

Nathalia Goulart. Censurar Monteiro Lobato é analfabetismo histórico. 2012. Disponível em: http://veja.abril.com.br/noticia/educacao/pintar-monteiro-lobato-como-racista-e-um-equivoco/. Acesso em 05 nov. 2015.


Um comentário:

  1. Amigo, gostei muito deste artigo. Achei completo de informações, muito bem escrito e de uma imparcialidade ética.Fiquei muito triste quando soube dessa polêmica, pois vejo em Lobato um escritor e um educador geniais. As suas histórias embalaram e enriqueceram minha infância como a de muita gente. Conte comigo nessa luta corajosa em busca da verdade. Abraço! Fatima K. V.

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