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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Dama e Heroína Negra

Keith Mallett

Uma verdade nua e crua é esta: verdadeiramente é pela marca do machismo que personagens como Dandara não são reconhecidas ou sequer estudadas nas escolas. Mas, você sabe quem foi Dandara?  E por quê pessoas como ela não são reconhecidas?

Não me admira que pessoas brancas, e até mesmo negras não conheçam personagens como a citada, uma vez que, até os movimentos negros e feministas mencionam pouco essa mulher, bem como outras tantas negras guerreiras, que fizeram história no Brasil e no mundo. A pergunta é: por quê?

Por falta de dados históricos ou falta de interesse?

A verdade é que Zumbi, por exemplo, é aclamado como herói, quando existiram heroínas negras, tão importantes quanto, ou até mesmo mais, incluindo a esposa do rei do Quilombo de Palmares (Dandara).

Imagina ter que abrir espaço entre o machismo e o racismo, para se conseguir homenagear as mulheres negras que fizeram história na humanidade?

Verdade é que, os negros raramente se encontram nos livros de história, a não ser quando são abordados temas como escravidão e resistência do Quilombo de Palmares (ou algo do tipo), isto é, homenagear (que é bom) é algo que ocorre uma vez aqui e outra ali, e geralmente, direcionadas aos homens. Mas, e as mulheres negras? Elas crescem sem se encontrar nos livros de história, poesia, literatura ou sociologia (Jarid Arraes).

O professor Kleber Henrique salientou, certa vez que, até hoje não se tem conhecimento de como era o rosto de Dandara ou de onde ela veio. Pelo andar da carruagem amigos, apagar estas guerreiras da história foi e continua a ser um risco, que não se concretizou ainda porque existem algumas poucas mulheres negras, que garimpam informações sobres estas heroínas, em suas pesquisas solitárias.

Algumas pessoas (negras geralmente) até sabem um pouco sobre Dandara (de que ela foi esposa de Zumbi), mas, não passa disso?

Saibam: “ela não queria acordos pela metade e nem se vendia em troca de libertação parcial, ela morreu como uma heroína que foi em vida e, graças à sua luta, portanto, nos recusamos a aceitar que Dandara seja figura esquecida, ou que continue sendo lembrada sob a sombra masculina de Zumbi” (Jarid Arraes).

Concordamos, e vamos relembrar um pouco sobre esta incrível mulher:

Dandara viveu no século XVI, no período colonial do Brasil, e foi esposa de Zumbi dos Palmares.

Ela foi a face feminina deste Quilombo, e tem uma biografia cercada de incertezas, com escassos registros historiográficos.

Diz-se que Dandara perdeu a vida em 1694, ao se jogar de uma pedreira ao abismo. Por que uma decisão tão extrema? Porque não queria se entregar, ia ser presa, e não pretendia retornar à condição de escrava. Também pudera, ser escrava era sinônimo de estupro (pelos senhores de engenho), servidão, maus-tratos, para dizer o mínimo.

Dandara é descrita como guerreira que dominava técnicas da capoeira, que teria lutado ao lado de homens e mulheres, nas muitas batalhas travadas contra Palmares.

Não se sabe se ela nasceu no Brasil ou no continente africano, sabe-se somente que ela teria se juntado, ainda menina, ao grupo de negros rebeldes que desafiaram o sistema colonial escravista, por quase um século. Diz-se que ela tinha ascendência na nação africana de Jeje Mahin - afirma a antropóloga Maria de Lourdes Siqueira, professora aposentada da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Vocês conhecem outra negra guerreira que foi homenageada aqui em nosso blog, e que era Mahin? Vejam em: “Luísa Mahin, a guerreira africana, que quase foi rainha de Salvador”, publicação do dia 20 de out. 2015. Voltando ao assunto:

Diz-se também, que Dandara participava da elaboração das estratégias de resistência do quilombo.

Mulheres como Dandara e Luiza Mahin foram excepcionais porque não se encaixavam nos padrões de gênero, que ainda hoje são impostos às mulheres.
Não se conhece a imagem de Dandara, mas, pelo talento demonstrado, ela deve ter sido uma mulher forte, bela, guerreira, persuasiva, líder, e obstinada por liberdade (“O Globo”, em 15/11/2014).

Um importante papel exercido por esta guerreira Zumbi foi no rompimento do marido com seu antecessor, Ganga-Zumba, primeiro grande chefe do Quilombo de Palmares, e tio de Zumbi. “Em 1678, Ganga-Zumba assinou um tratado de paz com o governo de Pernambuco. O documento previa que as autoridades libertassem palmarinos que haviam sido feitos prisioneiros, em um dos confrontos, e os nascidos em Palmares, além de permissão para realizar comércio. Em troca, a partir dali, os habitantes do quilombo deveriam entregar escravos fugitivos que ali buscassem abrigo. Dandara, ao lado de Zumbi, teria sido contrário ao pacto, por entender que se tratava de um acordo que não previa o fim da escravidão. Ganga-Zumba acabou sendo morto por um dos palmarinos contrários à sua proposta” (“O Globo”, em 15/11/2014).

Na “Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana”, o pesquisador da cultura afro-brasileira e compositor Nei Lopes descreve e Dandara como “Personagem lendária da história de Palmares”.

Já para a historiadora Sandra Santos, a história da personagem não ganhou espaço nos registros oficiais por vivermos “num mundo sexista e racista”. Em suma: ela existiu e não é reconhecida por conta do machismo e racismo prevalecente no Brasil.

Mas ainda bem que, “o que a historiografia não supre, a literatura resolve. As crenças populares abraçam, recriam, a boca do povo favorece. Os contos e lendas que crescem em volta dessas personagens as transformam em mitos. Os textos oficiais não as reconhecem ainda, mas elas teimam em subsistir de outras maneiras. Ninguém as esquece porque são mais lindas que a verdade dos homens, mais fortes que a história construída à força, imposta pelo poder dos vencedores” (belíssimo texto de DANDARA TINOCO, no portal O Globo, 15/11/2014).

Conheça o livro: "As Lendas de Dandara", em: http://www.aslendasdedandara.com.br/.

Esse livro mistura ficção, história e um toque de fantasia, ao narrar dez contos sobre a guerreira quilombola Dandara dos Palmares, companheira de Zumbi dos Palmares. O livro narra a vida de Dandara desde o seu nascimento, explicando sua origem, suas conquistas e suas lutas. Autora: Jarid Arraes. Ilustração: Aline Valek.

Os contos são inspirados em fatos reais da história do Brasil, e a autora buscou valorizar a cultura afro-brasileira, e sublimar a memória dessa guerreira negra dos Palmares.


Indico também, os cordéis da feminista Jarid Arraes, em: http://jaridarraes.com/cordel/

Ela descreveu personagens como: Luiza Mahin, Carolina Maria de Jesus, Dandara, e tantas outras divas negras.



Fontes:

Jarid Arraes. E Dandara dos Palmares, você sabe quem foi? 2014. Disponível em: http://www.revistaforum.com.br/questaodegenero/2014/11/07/e-dandara-dos-palmares-voce-sabe-quem-foi/. Acesso em 25 nov.2015.

Dandara Tinoco. Descrita como heroína, Dandara, mulher de Zumbi, tem biografia cercada de incertezas. Disponível em: http://oglobo.globo.com/sociedade/historia/descrita-como-heroina-dandara-mulher-de-zumbi-tem-biografia-cercada-de-incertezas-14567996#ixzz3sVXymXAz. Acesso em 25 nov.2015.

Wikipédia, a enciclopédia livre. Dandara. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Dandara#cite_note-6. Acesso em 25 nov.2015.

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