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terça-feira, 10 de novembro de 2015

O papel da Capoeira na Política Abolicionista e a formação da temida Guarda Negra (1888 - 1890).


Esta postagem tem o objetivo de reverenciar mais um nome de peso da literatura brasileira, que era afrodescendente, e foi, segundo alguns especialistas, o idealizador do Guarda Negra.

José Carlos do Patrocínio (1853 - 1905) foi um farmacêutico, jornalista, escritor, orador e ativista político brasileiro, que destacou-se como uma das figuras mais importantes dos movimentos Abolicionista e Republicano no Brasil.

Filho de João Carlos Monteiro, vigário da paróquia de Campos dos Goytacazes, e orador sacro de reputação, na Capela Imperial, com Justina do Espírito Santo, uma jovem escrava de quinze anos, cedida ao serviço do cônego, por D. Emerenciana Ribeiro do Espírito Santo, proprietária da região.

O religioso encaminhou o menino José do Patrocínio) para a sua fazenda na Lagoa de Cima, onde iria passar a infância como liberto, porém convivendo com os escravos e com os rígidos castigos que lhes eram impostos.

Depois de cursar Farmácia, José do Patrocínio ingressa na carreira de jornalista, sendo admitido como redator na Gazeta de Notícias, que mais tarde, seria adquirida por Patrocínio, com recursos obtidos junto ao sogro, depois do falecimento de Ferreira de Meneses (1881).

Em 1879, José do Patrocínio iniciou a campanha pela Abolição da escravatura, e, em torno de si formaram-se grupos de jornalistas e oradores.

Em 1880, Patrocínio, juntamente com Joaquim Nabuco, funda a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão; e em 1883, articulam a Confederação Abolicionista, congregando todos os clubes abolicionistas do país.

Patrocínio também auxiliou a fuga de escravos e angariou fundos para adquirir alforrias, com a promoção de espetáculos ao vivo, comícios em teatros, manifestações em praça pública, etc.

O sepultamento da mãe de José do Patrocínio acabou transformando-se em um ato político, em favor da abolição, com a presença de personalidades como: o ministro Rodolfo Dantas, o jurista Rui Barbosa e os futuros presidentes Campos Sales e Prudente de Morais.

Em 1886, Patrocínio ingressa na política, sendo eleito vereador da Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Em 1887, com a fundação do periódico - "A Cidade do Rio" - é intensificada a sua atuação e influência política.

Com a vitória na campanha abolicionista, e por ironia do destino, o periódico: "A Cidade do Rio", e a própria figura de Patrocínio serão identificados, pela opinião pública, como defensores da monarquia em crise.

Após a proclamação da República (1889), Patrocínio entra em conflito com o governo do marechal Floriano Peixoto, sendo detido e deportado para Cucuí, no alto rio Negro, no estado do Amazonas. Retornará depois, ao Rio de Janeiro, discretamente, em 1893, vindo a residir no subúrbio de Inhaúma.

José do Patrocínio faleceu aos 51 anos de idade, depois de atuar, como um dos maiores jornalistas da abolição.


Sobre a "Guarda Negra"


A Guarda Negra, foi um grupo de negros capoeiristas, que agiam, muitas vezes, de forma violenta, contra o Partido Republicano, na cidade do Rio de Janeiro, entre 1888 e 1890. O objetivo do grupo seria apoiar a Monarquia, e impedir a República, no Brasil.

Você sabia?

Que capoeiras sempre foram arregimentados para "lutarem"
 ao lado de alguma facção política - isso, desde o Império.

Graças ao fim da escravatura, grande massa de negros livres iriam se concentrar nas cidades (corte), despertando medo nos brancos aristocratas. Estes temiam a formação de uma grande rebelião escrava. A historiadora Célia Marinho de Azevedo (1987) nomeou isto de:“Onda Negra, medo Branco”, e concluiu que, a pressão política para o fim da escravidão estava relacionada ao receio de uma revolta de negros, semelhante ao ocorrido no Haiti.

Fato é que, a população urbana vivia em constante apreensão, com estes grandes grupos de ex-escravos, que adentravam a corte e formavam as maltas de capoeiras.

O historiador Carlos Eugênio Líbano Soares (1994) estudou as maltas e concluiu que, os grupos de mestiços livres (nacionais) e escravos africanos se dividiam entre: Guayamus (composto por mestiços, pardos e brancos pobres) e Nagóas (composto por negros escravos e alforriados) na cidade do Rio de Janeiro entre 1850 e 1890.

Tais grupos se confrontavam nas ruas da cidade do Rio de Janeiro, entre os anos de 1850, desde o fim do tráfico negreiro até o advento da República em 1889.

Os Nagóas eram protegidos por membros do partido conservador, que recrutavam estes bandos, para invadir residências, lojas comerciais ou jornais abolicionistas. Já os Guayamus eram apoiados pelos liberais, e depois escolhidos como guardas costas de políticos, contra as ameaças de membros do Partido Conservador.

Soares (1994, p.80) enfatiza que, o controle das ruas do Rio de Janeiro era dividido entre as milícias de capoeiras que repartiam entre si o domínio das zonas urbanas e rurais, conforme o domicilio e o local de trabalho de ex-escravos. Essas milícias chegaram a receber muitos negros libertos, que atuaram na Guerra do Paraguai, e retornaram em 1870, com patentes do exército, porém, sem prestigio social.

O grupo Guayamus era composto de mestiços e brancos de origem portuguesa, que executavam serviços diversos, no comércio e nas casas da elite urbana.

As maltas do grupo Nagóa eram formadas por habitantes das áreas rurais do Rio de janeiro, que se deslocaram-se para o centro, onde prestavam vários serviços.

O poder destas maltas acabou crescendo em importância, perante a imprensa carioca, graças ao apoio de partidos políticos. Tornou-se comum ver nos periódicos semanais, relatos de distúrbios provocados pelos capoeiristas, bem como da rivalidade entre estes. Segundo a imprensa, os Guayamus e os Nagóas pretendiam dominar todo o meio urbano carioca, com a conivência da elite política. Para coibir a ação das maltas, a delegacia da Freguesia do Glória chegou a incorporar capoeiristas na força policial.

Um grande destaque da imprensa eram ações do grupo chamado maltas, que usavam navalhas nas lutas, resultando em assassinatos dos rivais. Muitos maltas iam presos, entretanto, eram libertados logo em seguida, graças à ação judicial impetrada por alguns senhor de posses, que deviam favores às milícias ou aos donos dos escravos, que integravam as maltas. Ou seja, naquela época, a impunidade já existia, em decorrência de interesses de grupos econômicos ou políticos, que lucravam com a violência das maltas, nas ruas.


A abolição da Escravidão e a ascensão de Nova Malta (Guarda Negra)


Com a abolição, os grupos de capoeiras se dividiram em milícias, de acordo com os interesses políticos recebidos, de ambos os partidos – conservador ou liberal.


Abolicionistas como José do Patrocínio tentaram apaziguar as tensões entre os grupos sociais, ao publicar artigos exaltando as qualidades dos ex-cativos, como forma de inserir no imaginário popular as virtudes que os mesmos poderiam adquirir, como cidadãos emancipados.

José do Patrocínio acreditava que, a integração do negro passava pela proteção das instituições políticas, ao apoiar o Império, e ao educar os ex-escravos para o trabalho assalariado, tanto nas fazendas, quanto no meio urbano. Ele acreditava na ideologia da correção dos vícios deste ex-escravos, através da educação e inclusão política. Tal ideologia foi sendo divulgada na redação de seu jornal, o” Cidade do Rio”. E, isso ocorreu, de 1887 até o advento da República, em 1889.

Então, as maltas de capoeiras do grupo Nagoa formaram a temida Guarda Negra, que foi recebido por José do Patrocínio, em 1888, na redação do jornal Cidade do Rio, como um grupo de proteção à Monarquia.

O nome Guarda Negra veio da imprensa carioca, ao relatar a onda de violência cometida nos comícios republicanos, promovidos por Silva Jardim.

Finalizando: destaco a versão dada por Orico, biografo de José Patrocínio. A Guarda Negra, para Orico (1977), foi constituída a partir um grupo de negros, apoiados por monarquistas, que se reuniram para formar uma irmandade negra - a Sociedade Recreativa Habitante da Lua - na região de Santana, reduto dos Nagoas. Essa irmandade era formada por negros alforriados e, posteriormente, passou a aceitar negros libertos.

A irmandade jurava defender a Monarquia, e obedecia compromissos solenes e rituais de devoção à princesa Isabel, com direito a sessões secretas, e juramentos sagrados, baseados na Bíblia. A violação destes segredos podia levar à expulsão ou à morte dos culpados.

Segundo Magalhães Junior (1976) a formação da primeira versão da Guarda Negra foi iniciativa, não de José do Patrocínio, mas, de Manuel Maria Beaurepaire Pinto Peixoto, abolicionista e monarquista.

Para Maria Lúcia Rangel Ricci (1990) os idealizadores da Guarda Negra foram os abolicionistas mais exaltados, como José do Patrocínio, que queriam combater a influência do Partido Republicano, perante a população do Rio de Janeiro.

Merece destaque o seguinte: os registros sobre a existência destes grupos, bem como suas ações pacificas ou violentas, são encontrados em artigos de José do Patrocínio, no Cidade do Rio, entre os anos de 1888 e 1889, e nos de Rui Barbosa, no Diário de Notícias, no ano de 1889.

Temos no entanto, e em suma, que muitas versões, de diferentes historiadores, podem ser encontradas, a respeito da origem da Guarda Negra. E, por se tratar de tema amplo, recomendo que você leia o artigo na íntegra, no blog: http://guardanegra.blogspot.com.br/, ou realize uma pesquisa pessoal, porque não sou especialista, nem disponho de tempo para realizar uma pesquisa séria.

Em todo caso, José do Patrocínio foi um grande jornalista abolicionista de nossa história, e merece ser lembrado com respeito e admiração.

Sugiro a leitura de: "A Guarda Negra: a capoeira no palco da política", de Carlos Eugênio Líbano Soares. Disponível em: http://dc.itamaraty.gov.br/imagens-e-textos/revista-textos-do-brasil/portugues/revista14-mat6.pdf. 

Leia também: "Memórias e Histórias da Guarda Negra: verso e reverso de uma combativa organização de libertos", de Clícea Maria Augusto de Miranda. Disponível em:
http://www.snh2011.anpuh.org/resources/anais/14/1307970600_ARQUIVO_ApresentacaoClicea_ANPUH2011.pdf. 

Ou leia: "Artífices de sua própria história: a Guarda Negra da Redemptora como espaço de construção de identidades e exercício da cidadania" (MATTOS, Augusto Oliveira. Guarda Negra: a Redemptora e o ocaso do Império. Brasília: Hinterlândia. Editorial, 2009. 123p.).


Sobre Capoeira:

A capoeira ou capoeiragem é uma expressão cultural brasileira, que mistura arte marcial, esporte, cultura popular e música. Desenvolvida no Brasil principalmente por descendentes de escravos africanos, é caracterizada por golpes e movimentos ágeis e complexos, utilizando primariamente chutes e rasteiras, além de cabeçadas, joelhadas, cotoveladas, acrobacias em solo ou aéreas.


Uma característica que distingue a capoeira da maioria das outras artes marciais é a sua musicalidade. Praticantes desta arte marcial brasileira aprendem não apenas a lutar e a jogar, mas também a tocar os instrumentos típicos e a cantar. Um capoeirista que ignora a musicalidade é considerado incompleto.

O termo capoeira deriva, provavelmente, do tupi kapu'era, que significa "o que foi mata", através da junção dos termos ka'a ("mata") e pûera ("que foi"). Refere-se às áreas de mata rasteira, do interior do Brasil, onde era praticada agricultura indígena. Acredita-se que a capoeira tenha obtido o nome, a partir destas áreas que cercavam as grandes propriedades rurais de base escravocrata. Capoeiristas fugitivos da escravidão, e desconhecedores do ambiente ao seu redor, frequentemente usavam a vegetação rasteira, para se esconderem da perseguição dos capitães do mato.

Você sabia?

Que capoeiras foram combatidas. desde 
a chegada da família imperial ao Brasil, 
em 1808.


Origem da capoeira:

Segundo alguns estudiosos (não sabemos se é verdade), no século XVII, era costume dos povos pastores do sul da atual Angola, na África, comemorar a iniciação dos jovens, à vida adulta, com uma cerimônia chamada n'golo (que significa "zebra" em quimbundo). Durante a cerimônia, os homens competiam numa luta animada pelo toque de atabaques, em que o ganhador seria quem conseguisse encostar o pé na cabeça do adversário, e teria o direito de escolher, sem ter de pagar o dote, uma noiva, entre as jovens que estavam sendo iniciadas à vida adulta. Como a capoeira foi introduzida no Brasil, vocês já sabem: tráfico negreiro. 

Leia a tese de mestrado: “A Negregada Instituição: “Os capoeiras na Corte Imperial 1808 – 1850”, de 1993 (UNICAMP), e a tese de doutorado: “A Capoeira escrava no Rio de Janeiro 1808 – 1850”, do historiador Carlos Eugênio Líbano Soares.


Fontes:

Marco Antonio dos Santos. Vida e morte de Lima Barreto. 2005. Disponível em: http://marconegro.blogspot.com.br/search?updated-min=2005-01-01T00:00:00-02:00&updated-max=2006-01-01T00:00:00-02:00&max-results=50. Acesso em 10 nov. 2015.

Wikipédia, a enciclopédia livre. José do Patrocínio. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_do_Patroc%C3%ADnio. Acesso em 10 nov. 2015.

Iracema Santos Medrado. A origem e a formação da Guarda Negra (1888 - 1890). Disponível em: http://guardanegra.blogspot.com.br/. Acesso em 10 nov. 2015.

Wikipédia, a enciclopédia livre. Capoeira. Disponível em:
https://pt.wikipedia.org/wiki/Capoeira. Acesso em 10 nov. 2015.

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