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terça-feira, 18 de agosto de 2015

Educação imaginativa e histórica - Eurocêntrica

A publicação: "Os reis que esquecemos", do site Geledés, começa assim, sua bela crítica: "que menina nunca sonhou em ser uma bela princesa, morando num castelo medieval de pedra, como os dos contos de fadas? E que rapaz nunca almejou ter a força e a coragem do Rei Artur, dos príncipes e cavaleiros medievais, que arriscavam suas vidas em caçadas à dragões e guerras sangrentas? Príncipes e princesas brancos, em castelos de pedra? Monstros das neves e dragões no topo de montanhas geladas? Somos criados dentro de um imaginário fantasioso, completamente alheio ao nosso Brasil. De fato, boa parte de nossos heróis vem de um contexto muito diferente do nosso: da Europa medieval "(Paulo de Tarso Valério, do Afreaka).

Então, quais seriam os reis da história real e os heróis da história fictícia (negra e africana), dignos de nota, em nosso país?

Na escola brasileira, aprendemos em aulas de história colonial, sobre a genocida escravatura, uma vergonhosa obra da natureza brutal humana; mas, conhecemos em outras matérias, um pouco de nossa cultura, através de historinhas infantis - o folclore - dos quais costumamos lembrar de uma figurinha carimbada, retratada na obra de Monteiro Lobato. Trata-se do único personagem negro, com expressividade e fama, em nossa literatura infantil - o saci-pererê (alguém sabe me dizer se há outros personagens, com semelhante expressividade, em nossos livros infantis, que sejam negros?).

O saci é um negro jovem de uma só perna, portador de uma carapuça sobre a cabeça, que lhe concede poderes mágicos. Da mitologia africana ele herdou a capoeira (perdeu uma perna lutando capoeira) e o cachimbo. Da mitologia europeia,  herdou o píleo, um gorrinho vermelho, usado pelo lendário Trasgo, um ser encantado, do folclore de Portugal, que tinha pequena estatura, e usava esse gorro vermelho. Ele também tinha poderes sobrenaturais.

 
Imagem de André Koehne
From: Wikimedia Commons, the free media repositor

Lamentavelmente ,não estamos falando de um herói, já que o saci é uma figura brincalhona, que se diverte com os animais e pessoas, fazendo pequenas travessuras, que criam dificuldades domésticas, ou mesmo assustando viajantes noturnos, com seus assovios – bastante agudos e impossíveis de serem localizados.

Sobre a pessoa que imortalizou esse personagem folclórico, citaremos a polêmica de Monteiro Lobato como um escritor racista.  A revista 'Dados', publicação acadêmica, editada pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipesp-UERJ), resgata na edição 56, a polêmica de 2010, em torno das obras infantis do escritor, em artigo assinado pelos professores João Feres Júnior, Leonardo Fernandes Nascimento e Zena Winona Eisenberg, e que não deixam dúvidas: os contos escritos por Monteiro Lobato disseminam preconceito.

Diz-se que, Monteiro Lobato foi membro da Sociedade Eugênica de São Paulo. Mas, você sabe o que é Eugenia?

Eugenia é um termo criado em 1883, por Francis Galton (1822-1911), significando:  "o estudo dos agentes, sob o controle social ,que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais, das futuras gerações, seja física ou mentalmente. Em poucas palavras  faz alusão à - 'bem nascido'. Trata-se do marco inicial da eugenia nazista, que veio a ser parte fundamental da ideologia de "pureza racial", a qual culminou no Holocausto.

Continuando: Monteiro Lobato era mesmo racista? 

Está registrado que, ele escreveu, a um dos membros da sociedade de eugenia paulista, algo muito esclarecedor, a respeito de seu caráter:  "País de mestiços, onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan (KKK), é país perdido para altos destinos...". E no livro: "Caçadas de Pedrinho", do mesmo autor, há o seguinte trecho: "“Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro de São Pedro acima, com tal agilidade que parecia nunca ter feito outra coisa na vida...”; e também, esta outra passagem: “Não vai escapar ninguém, nem tia Nastácia, que tem carne preta”.  Quer ver um triste fato? O MEC tem o livro no catálogo do Programa Nacional Biblioteca na Escola (Maurício Dias).

Para continuar com a matéria, sobre o racismo deste escritor, de literatura infantil brasileira, acesse:
http://www.cartacapital.com.br/revista/749/monteiro-lobato-racista-empedernido
 
Eis ai, a face da educação do Brasil, que tem personagens negros apequenados, que não honram verdadeiramente o povo africano, que tanto nos legou em termos de cultura e raça. "A educação brasileira insiste no desconhecimento da África, ensinando os seus alunos à ignorar belas histórias africanas, de coragem, honra e bravura, que, na verdade, estão muito mais próximas de nossas raízes brasileiras" (Paulo de Tarso Medeiros Valerio).

Quer ver um exemplo?
 
Paulo Valerio chama a atenção para o seguinte paradigma: enquanto as meninas eram (e continuam a ser) educadas para serem passivas, fracas e dependentes dos homens – como princesas da Disney e dos contos de fada – uma verdadeira rainha africana poderia ser um exemplo muito mais valioso e poderoso para as crianças brasileiras: é a "Ginga, a incapturável rainha angolana".

Nzinga Mbandi, rainha Ginga ou Dona Ana de Sousa foi uma rainha angolana (Ngola), dos reinos do Ndongo e de Matamba, no Sudoeste de África no século XVII. O seu título real, na língua kimbundu - Ngola - foi o nome utilizado pelos portugueses, para denominar aquela região (Angola).


Segundo Paulo Valerio, Ginga foi estrategista política e militar, guerreira e diplomata, e se manteve no poder por mais de 40 anos. Inteligente, forte e carismática, a rainha resistiu fortemente à invasão portuguesa no século XVII, negociou acordos diplomáticos com sabedoria, liderou rebeliões e jamais se entregou ou aceitou a dominação de estrangeiros.

Leia a matéria, de Paulo Valério, na íntegra, em:

http://www.geledes.org.br/os-reis-que-esquecemos/#ixzz3jD2xZy1i

Então, te pergunto, amigo: qual seria o resultado de nossa educação fundamental esquecer-se de sua origem africana, que poderia nos legar bons exemplos de coragem e luta, aos jovens brasileiros?

Em uma só frase: "Histórias, contos, mitos e fábulas moldam todo o caráter de um povo..." (Paulo de Tarso).  Acompanhem os textos desse autor no: 

Temos de fato, poucos exemplos de guerreiros africanos (não em sentido estrito), que são conhecidos e estimados, no Brasil, e que poderiam ajudar a moldar o caráter de nossos jovens. É o caso do herói negro, brasileiríssimo: Zumbi dos Palmares. Ele foi o último, dos líderes do Quilombo dos Palmares, o maior dos quilombos, do período colonial.

Pra quem não sabe: a palavra Zumbi ou Zambi, vem do termo nzumbe, do idioma africano quimbundo, e significa fantasma, espectro, alma de pessoa falecida. Se você conhece um pouco da história, sabe o por quê do termo "alma".
    

Imagem de Antônio Parreiras
 
 
 
Imagem postada por Brenda Maria no Flickr / Cartão postal criado para SomZala
 
Um pouco de história: por volta de 1678, o governador da Capitania de Pernambuco, cansado do longo conflito com o Quilombo de Palmares, se aproximou do líder do Quilombo - Ganga Zumba, - com uma oferta de paz. Foi oferecida a liberdade para todos os escravos fugidos, se o quilombo se submetesse à autoridade da Coroa Portuguesa; a proposta foi aceita pelo líder, mas Zumbi rejeitou a proposta do governador, e desafiou a liderança de Ganga Zumba. Prometendo continuar a resistência contra a opressão portuguesa, Zumbi tornou-se o novo líder do quilombo de Palmares.

O Quilombo de Palmares, localizado na Capitania de Pernambuco, atual região de União dos Palmares, Alagoas, era uma comunidade, um reino formado por escravos negros, que haviam escapado das fazendas, prisões e senzalas brasileiras. Naquele momento sua população alcançava por volta de trinta mil pessoas.

Zumbi é considerado um dos grandes líderes de nossa história. Símbolo da resistência e luta contra a escravidão, lutou pela liberdade de culto, religião e prática da cultura africana no Brasil Colonial. O dia de sua morte, 20 de novembro, é lembrado e comemorado em todo o território nacional como o Dia da Consciência Negra.

Então, para finalizar, utilizando as palavras do genial inspirador desta postagem: "As consequências de desprezarmos nossas raízes africanas são muito mais amplas do que imaginamos.Histórias, contos, mitos e fábulas moldam todo o caráter de um povo. Ao adotarmos um imaginário cultural estritamente europeu, deixamos de enriquecer as crianças com exemplos de personalidades reais fortes e carismáticas, que poderiam nos descolar da admiração por vencedores pela opressão e nos aproximar daqueles que provam que a verdadeira força não depende do gênero, ou da riqueza material e superioridade militar, mas sim da resiliência, criatividade, coragem e bravura" (Paulo Valério do Afreaka).

Fontes:

Paulo de Tarso Medeiros Valerio. Os reis que esquecemos - Geledés. Disponível em: 

Zumbi. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Zumbi_dos_Palmares. Acesso em: 18 de ago. 2015.

Nzinga Mbandi.Disponível em:https://pt.wikipedia.org/wiki/Ana_de_Sousa. Acesso em: 18 de ago. 2015.

Eugenia. Disponível em:https://pt.wikipedia.org/wiki/Eugenia. Acesso em: 18 de ago. 2015.


Saci. Disponível em:https://pt.wikipedia.org/wiki/Saci. Acesso em: 18 de ago. 2015.



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