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segunda-feira, 27 de julho de 2015

Carolina - A escritora que o Brasil esqueceu.

Grandes Personalidades Negras  


Esta seção é dedicada aos homens e mulheres, da história da humanidade, que foram geniais em suas trajetórias, que fizeram a diferença no mundo, e que tinham algo em comum: a pele negra, a negritude "à flor da pele".


Filha ilegítima de um homem casado; semianalfabeta, negra e favelada, Carolina Maria de Jesus foi mãe solteira de três crianças, e, apesar dos percalços da vida, a paixão pela leitura e pela escrita foi tamanha, que levou a pobre e grande mulher à dividir o tempo entre catar papel, para sobreviver; cuidar dos filhos, sem ajuda dos pais, e escrever, de forma autodidata, chegando à lançar, pela livraria Francisco Alves, em agosto de 1960, o livro:"Quarto de Desejo: diário de uma favelada", que ganhou no mesmo ano, oito edições, vendendo mais de 100 mil exemplares. O livro foi traduzido para 14 idiomas, chegando a vender cerca de 1 milhão de cópias, em mais de 40 países.

O livro relata a memória de uma favelada, sobre o que via da vida no seu quartinho feito de madeira, lata e papelão, e sobre como as pessoas, por vezes, são levadas à trair seus princípios, para sobreviver.

Carolina Maria de Jesus nasceu em Minas Gerais, em 1914, numa família de negros analfabetos e meeiros. 


Filha ilegítima de um homem casado, aos sete anos de idade, Carolina, obrigada pela mãe, frequentou a escola, que era paga pela esposa de um rico fazendeiro; mas, dois anos depois, a jovem de personalidade forte abandonaria os estudos (isso depois de aprender a ler e a escrever). 

Em 1937, com a morte da mãe, Carolina, que é considerada uma das primeiras e mais importantes escritoras negras do Brasil, se viu impelida à migrar para a metrópole de São Paulo, onde irá construir a própria casa, usando madeira, lata e papelão. Seu primeiro emprego na capital paulista foi na casa de um médico, considerado o precursor da cirurgia cardíaca no Brasil (Euryclides Zerbini). Da biblioteca do cirurgião, sob autorização deste, a jovem mineira irá satisfazer sua sede pela leitura.

De personalidade agressiva e indisciplinada, Carolina pulou de emprego em emprego, até ter o primeiro filho, e ir parar na favela, de onde saía todas as noites, para coletar papel, a fim de conseguir dinheiro para sustentar sozinha, os filhos. Quando encontrava revistas e cadernos antigos, a jovem favelada guardava-os, para escrever em suas folhas, a respeito de seu dia-a-dia, e sobre como era morar na favela. Diz-se que isso aborrecia seus vizinhos, que não eram alfabetizados. Aqueles que conviveram com a jovem escritora descreviam-na como metida. De fato, Carolina tinha uma alma incomum, que não se encaixava no perfil de pobre favelada. Ela jamais se resignou às condições impostas pela classe social a qual pertencia. Ao ver muitas pessoas do seu círculo social sucumbirem às drogas, álcool, prostituição, violência e roubo, Carolina lutou para se manter fiel à escrita, e aos filhos, a quem sustentava vendendo lixo reciclável.



Como sua mãe, que teve dois filhos ilegítimos, fato que ocasionou sua expulsão da Igreja Católica, Carolina teve três filhos, cada um de um pai diferente, sendo um deles, segundo relatos, filho de um homem rico e branco. Fato é que, Carolina foi mãe solteira, uma guerreira negra brasileira.Carolina teve vários envolvimentos amorosos, mas, sempre se recusou à casar, provavelmente, por ter presenciado muitos casos de violência doméstica. 

Em seu diário, ela registrava o cotidiano dos moradores da favela, além de descrever  os fatos políticos e sociais que via. Ela escrevia sobre a pobreza e como o desespero pode levar pessoas boas à trair seus princípios, para conseguir comida para si e seus filhos. 



Em 1958 o destino sorriu para a jovem escritora autodidata. Apareceu na favela o jornalista Audálio Dantas, que fazia uma matéria sobre a favela do Canindé. A mulher briguenta, que ameaçava registrar as discórdias dos vizinhos em um livro, viu a oportunidade e não perdeu tempo, convidou o jornalista para conhecer seus escritos. Audálio se deparou com as descrições de um cotidiano, que ele não conseguiria reportar em sua escrita. “Achei que devia parar com a minha pesquisa, porque tinha quem contasse melhor do que eu. Ela tinha uma força, dava pra perceber na leitura de dez linhas, uma força descritiva, um talento incomum”, declarou o jornalista.

Mais tarde, o material editado por Audálio, retirado dos cadernos de carolina, os quais não precisaram passar por uma correção, viraram livro. “Selecionei os trechos mais significativos. O texto foi mantido na sintaxe dela, na ortografia dela, tudo original”, apontou o jornalista. Em um dos escritos de Carolina, há o relato da fome que vivia: "Que efeito surpreendente faz a comida no nosso organismo! Eu que antes de comer via o céu, as árvores, as aves, tudo amarelo, depois que comi, tudo normalizou-se aos meus olhos".

Carolina infelizmente não terminou bem sua vida, seus trabalhos posteriores não tiveram o mesmo sucesso. Uma negra, favelada, semianalfabeta, não mereceu crédito pela gente que achava que era impossível, que alguém naquelas condições escrevesse aquele livro. Segundo Audálio, essa desconfiança fez com que muitos críticos considerassem a obra uma fraude, talvez, os textos teriam sido escritos pelo jornalista. "A discussão era que ela não era capaz, ou, se escreveu, aquilo não era literatura, recordou o jornalista".

Passada a novidade, Carolina foi esquecida por todos. Sua filha lembra que quando tinha treze anos, viu a pior fome acontecer, aquela de quem um dia teve fartura. Carolina voltou a catar papel. Viveu um auge que foi fugaz, e se considerava culpada de não ter sabido aproveitara oportunidade vivida. Mas, "isso possivelmente ocorreu devido à sua personalidade forte, que a afastava de muita gente, além da drástica mudança no panorama político brasileiro, a partir do golpe de estado em 1964, que marginalizaria qualquer manifestação popular. No entanto, o que é realmente relevante é a importância da sua história para a compreensão da condição de vida nas favelas brasileiras da época". Como é observado pelo historiador José Carlos Sebe, “traduções dos seus diários em classe foram utilizadas por diversos especialistas estrangeiros sobre o Brasil, durante anos.”; isso indica a importância mundial do seu papel como fonte primária sobre a vida nas favelas e na América Latina.

Seu livro foi amplamente lido, tanto no ocidente liberal e capitalista, como nos países do bloco socialista.No primeiro seu livro retratava um sistema cruel e corrupto reforçado durante séculos por ideais colonizadores presentes nas dinâmicas sociais da população. Já para os leitores comunistas, suas histórias representavam perfeitamente as falhas do sistema capitalista no qual o trabalhador é a parte mais oprimida do sistema econômico.

Livros Publicados pela escritora:
Quarto de despejo (1960)
Casa de Alvenaria (1961)
Pedaços de fome (1963)
Provérbios (1963)
Diário de Bitita (1982) obra póstuma
Meu estranho diário (1996) obra póstuma
Antologia pessoal (1996) obra póstuma
Onde Estaes Felicidade (2014) obra póstuma


Programa "Tirando de Letra", da UnB TV, entrevista a Prof.ª Germana Henriques, falando sobre o livro: "Carolina Maria de Jesus: O Estranho Diário da Escritora Vira Lata".


Carolina morreu em 1977, em decorrência de uma crise de asma.

Como dica do portal “fotografias do última hora”, alguns trabalhos sobre Carolina Maria, e o contexto histórico de sua obra:

– Rufino dos Santos, Joel. Carolina Maria de Jesus: uma escritora improvável. Rio de Janeiro:Fundação Biblioteca Nacional, 2009.
– Lajolo, Marisa. A leitora no quarto dos fundos. Leitura: teoria. 14 (25): 1018, jun. 1995.
– Martins, Wilson. “Mistificação literária”. In: Jornal do Brasil, 23 de outubro de 1993, p. 4.
– Vogt, C. “Trabalho, pobreza e trabalho intelectual”. In: R. Schwarz (ed.), Os pobres na literatura brasileira. São Paulo: Brasiliense,1983.
– Meihi, José Carlos Sebe Bom. Carolina Maria de Jesus: Emblema do silêncio 
– Meihi, José Carlos Sebe Bom. Cinderela negra: a saga de Carolina Maria de Jesus

Se estivesse viva, em 2014, a escritora celebraria seu centenário. Apesar de não estar mais entre agente, uma série de homenagens podem e devem ser feitas, para essa que é uma das mais importantes autoras negras brasileiras.

Uma salva de palmas a esta incrível mulher,

negra e brasileira!


FOTOS RETIRADAS DO ARQUIVO FOTOGRÁFICO CAROLINA MARIA DE JESUS.
http://fotografiasdoultimahora.com.br/arquivo-fotografico-carolina-maria-de-jesus/


Fontes:

Wikipédia. Carolina Maria de Jesus. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Carolina_de_Jesus. Acesso em 27 jul. 2015.

Karla Monteiro. Escritora Carolina Maria de Jesus viveu do caos ao caos. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/11/1550499-escritora-carolina-maria-de-jesus-viveu-do-caos-ao-caos.shtmlAcesso em 27 jul. 2015.

Agência Brasil. Carolina Maria de Jesus. Disponível em: http://educacao.uol.com.br/biografias/carolina-maria-de-jesus.htm. Acesso em 27 jul. 2015.
Paz!

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